Garotos e garotas da laje,

Estou psicografando este post para declarar que ando com saudade de vocês. E também para denunciar que, aqui no Além, as coisas não andam tão tranquilas (ah, o saudoso trema dos meus tempos!) como eu esperava. Muitos têm sido os esforços terrenais para que eu me sacuda toda aqui na minha tumba: é Galliano bêbado protagonizando momentos de agonia social, é a Zara envolvida em escândalos de escravidão de imigrante ilegal, é a Victoria’s Secret fabricando algodão orgânico à base de sangue infantil na África, é coquetel molotov de Versace e H&M, é Karlinho Lagerfeld se rendendo ao low cost, são blogueiras que de repente se elevam à categoria de missionárias cuja nobre missão é evangelizar o “povão” sobre as delícias dos esmaltinhos Chanel, é um ministro caindo por dia. É muito escândalo, minha gente! E mesmo assim me mantive aqui, quietinha e quentinha.

Até que começaram a me cutucar com a existência de uma tal de Blogueira Shame. Na primeira vez em que entrei no blog, me assustei com um post no que ela “denunciava” uma blogueira que alisava o cabelo da filha pequena. Alisar cabelo de criança é uma tragédia, todos sabemos. No entanto, tudo pode ser dito civilizadamente, com bons argumentos. Com cuidado. Mas não. O que vi ali foi um verdadeiro escárnio com essa mãe, num julgamento exacerbado de pessoas descontroladas que chegavam a dizer que iam fazer um abaixo-assinado para denunciá-la ante o Conselho Tutelar. Sim, eles afirmavam que ela deveria perder a guarda da filha. Questionavam como pessoas dessa índole “podiam botar filhos no mundo”. E como se tudo isso fosse pouco, acusavam-na de ser racista com a própria filha. Acusação de racismo é coisa séria.

A mãe, kafkianamente, se submetia àquilo tudo. Reconhecia explicitamente o seu erro, explicava a sua postura, chegava a agradecer as críticas e a comprometer-se a nunca mais alisar o cabelo da filha. O sabor que ficou na minha boca? Que aquelas pessoas ensandecidas demonstravam se preocupar muito pouco com a criança. O que elas queriam era sangue. Escárnio. Mofa. Humilhação.

Também vi outro post no que humilhavam, com o mesmo tom, uma blogueira que “escrevia errado”: afirmavam que pessoas que “não sabem escrever” não podem ter blogs e milhares de outros impropérios que prefiro nem citar. Zombaria pouca era bobagem. Aquilo era pura perseguição mesmo. Perseguição, outra vez, vazia, preconceituosa e repleta de intolerância. A blogueira, uma menina bem novinha aliás, que afirmava que seu blog era apenas um passatempo, esclareceu que era disléxica e que havia pensado em abandonar o blog. Comprometeu-se a usar o word antes de publicar os seus textos, vejam só vocês, e a tratar-se com um profissional especializado.

Digam-me sinceramente: vocês conseguem admirar essas “vitórias” da Blogueira Shame e de suas adeptas? Chanelzinha aqui não. Não aprovo as formas. Não aprovo os métodos. Eu sou rata de internet desde 1996, meus caros, e sei que aqui tem público para tudo. Para todos os gostos, mesmo. Pensei: elas que são gladiadoras selvagens, que se matem na sua areninha virtual. Entre feras e feridos, as pessoas que passam por maus bocados naquele blog invariavelmente sobreviverão. Voltei a me ocupar com os meus afazeres aqui no além, tipo tomar chazinho com a Coco ou ir para a night com Loulou e Yves.

Para mim, não é nenhuma novidade que na blogosfera de moda tenha muita gente espertinha e mal-intencionada. Só que usar esse fato como bandeira ou pretexto para fazer chacota das roupas dos outros, das suas características físicas e da sua condição social é, no mínimo, coisa de gente da mais baixa categoria. Não posso pensar na existência de um argumento que justifique um negócio desses. A própria Coco, que curtia um nazista gostoso, concorda comigo.

Criticar roupa? É claro que eu critico os modelitos dos meus desafetos – e eles não são poucos – com as minhas amigas. Não sou santa, vocês sabem. A diferença é que eu falo baixinho, assim discretamente, para ninguém escutar. Seguindo as pautas de discrição e de boa conduta social que mamãe e papai ensinaram. Agora, rir das características físicas dos outros? Chamar de gordo, de magro, desmerecer alguém por causa de cabelo? Porque escreve “errado”? Se preocupar com as cutículas alheias? Com as cutículas, sério? Tratar uma espinha na testa dos outros como se fosse detonante de guerra nuclear nível Índia-Paquistão? Categorizar pessoas com rótulos de “pobres favelados ignorantes” ou “riquinhos esnobes que merecem morrer”? Vamos elevar o nível, né?

Mas o que me fez mesmo levantar a cabeça da minha tumba foi a denúncia que eu recebi hoje de que a pessoa por trás do Shame já teve outros sites sensacionalistas nessa mesma linha. Ou seja, montar um anfiteatro romano 2.0 deve ser fórmula de sucesso e provavelmente essa pessoa vai explorar o negócio enquanto ele for rentável. Problema dela. Responsabilidade dela.

Só peço à tal da tia Shame que deixe de tentar socializar comigo no tuírer. Para entrar na minha le creuset, tem que ter cacife. E da próxima vez que alguém falar que essa senhora é minha sucessora ou foi inspirada em mim, um meteorito vai explodir um planeta Terra com 7 bilhões de seres indefesos.

Sabem Rainha Elizabeth? Sabem Karl Lagerfeld? Sabem Lulinha da Silva? Sabem, inclusive e apesar de tudo, John Galliano? Não se faz um bom sucessor do dia para a noite, não. Deixem a minha memória descansar em paz, por favor. :-)

Beijos, continuo me amando, suas lindezas.


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