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Tardei, mas voltei! ;-)

E cá estou para botar a boca do trombone sobre diversos assuntos sugeridos por vocês.

Aproveito para agradecer a todos que me mandaram idéias. Vou tentar seguir mais ou menos a ordem de envio das perguntas. Também queria avisar que, pouco a pouco, vou responder a todos os emails e tuítes que ficaram acumulados nesse período. Obrigada a todos!

Vamos começar por um assunto que está muito em voga.

Querida Dechanel, adoro seus posts ácidos portanto queria saber o que acha da associação que as pessoas fazem de peso com felicidade!!!

Outro dia vi uma menina dizendo aqui mesmo que quem diz ser feliz vestindo GG é hipócrita!!
Outra, num outro blog, numa noticia de q a Beth Ditto roubava lojas e uma pessoa disse “além de gorda é ladra”!!
Continuando pelos blogs, as pessoas dizendo q Jeniffer Hudson e Kelly Osbourne agora são lindas e felizes pq emagreceram(oi???)

Tudo isso aliado a uma proliferação de ensaios plus size, apesar de na grande maioria serem estrelados por modelos q vestem 42 (no meu entendimento de qm estudou modelagem, plus size é acima de 46, mas ok)

Vamos colocar as gordinhas no lugar ao sol da sua laje???

Oi DeChanel
Tudo bem ??
Então essa semana a polêmica declaração da Garance sobre modelos plus size : “Não deveria ser tanta comoção mostrar mulheres com corpos diferentes, mas às vezes isso é tratado como piada, ou é feito para chocar, como as modelos plus-size extra na passarela da Semana de Moda de Londres” Não é sempre uma coisa boa mostrar modelos plus-size porque não é fisicamente saudável e nem sempre favorece a moda. Seria legal a idéia de corpos diferentes serem tidos como normais em alguns anos, mas ainda não chegamos a esse ponto”.
É um tema pra discussão lá no blog que vai longe né

Beijos e bom fds pra ti!

Como jornalistas de moda, o que nos inspirou foi indagar se poderíamos utilizar modelos acima do peso e falar de moda, só isso. Não queremos desviar a atenção ao fato de que as modelos estão acima do peso. Usamos mulheres realmente gordas e não as que apenas são cheinhas. É muito mais interessante mostrar que as mulheres gordas também podem ser vistas de forma incrivelmente sexy.

Valérie Toranian, redatora-chefe da Elle francesa.

A primeira coisa que eu preciso dizer sobre esse bafafá todo: achei a declaração da Valérie Toranian muito ambígua. Até agora não entendi aonde a Elle francesa queria chegar; por isso, de certa forma entendo o que a Garance Doré quis dizer.

Dito isto, vamos lá. Eu acho que já passou da hora desse culto à magreza acabar. Já deu.

Realmente, existe uma associação do peso com a felicidade. Isso é inegável. Mesmo que você seja imune a isso, mesmo que você nem ligue para o seu peso e mesmo que você esteja superfeliz com o seu corpo – seja ele como for -, você há de convir comigo que existe uma maquinaria ideológica vendendo há décadas a concepção de que nós – mulheres, especialmente – temos que fazer o possível e o impossível para adaptar-nos a esse padrão de beleza esquelética. Trata-se de uma verdadeira lavagem cerebral. A idolatria aos ossos.

Só que – palmas para o senso comum! – nem todo mundo pode ou quer adaptar-se a esse padrão. Uma das idéias mais difundidas é a de que “só é gordo quem quer”. Parece que todas as pessoas que estão acima do peso estão porque querem, porque escolheram isso conscientemente. Porque comem muito e/ou são umas irresponsáveis. Os pecadores da gula. Fatores biológicos e genéticos são completamente ignorados. Valores infundados são amplamente divulgados. Dizem que pessoas acima do peso não podem ser felizes com o próprio corpo. Também se vende muito a idéia de que qualquer pessoa gorda pode emagrecer num passe de mágica. Basta ter muita força de vontade, determinação, garra, tenacidade e o dinheiro necessário para investir, claro. É, minha gente, a indústria da magreza movimenta rios de dinheiro.

Não existe o culto à diversidade. Todo mundo tem que ser igual. Os que não correspondem ao padrão são massacrados. Até criança se sente no direito de zoar outra criança que é mais gorda que ela. Uma pessoa considerada gorda já ganha logo um título meigo: o gordo, a anta, o trator. Ou o fofíssimo: a gordinha. Fulana, a gordinha. Acho patético viver numa era onde o politicamente correto é a forma e o fascismo estético, o conteúdo.

Direcionando para a moda… todas as pessoas são magras? Todo mundo veste 34? 36, no máximo hipermáximo? Não. Então qual é a razão desse circo bulímico? Se a realidade não é assim, por que o mundo da moda tem que ser? Porque moda é sonho, evasão, arte, delírio, viagem lisérgica? Um mundo ideal, onírico, perfeito, maravilhoso? Aham. Conta outra.

E eu falo em mundo da moda porque as próprias pessoas que trabalham no meio são obcecadas com o peso. Dos que atuam nos bastidores aos que brilham na passarela. A indústria gera consumidores igualmente obcecados com as medidas. Qualquer extraterrestre que fizesse uma análise da gente diria que os seguidores da moda formam uma espécie de seita de devoradores de alface cujo deus é uma balança. Este, para mim, é o pior efeito colateral dessa faceta da indústria da beleza: milhares de pessoas enfiam o dedo na goela a cada refeição… para poderem entrar num trapinho ss.

Vejam bem, eu não estou aqui para julgar as pessoas que fazem dietas, tratamentos, exercícios, operações e uma infinidade de outros procedimentos com o intuito de emagrecerem. Cada pessoa tem uma história, uma realidade física e emocional, está inserida num contexto e, portanto, cada caso é um caso. Cada pessoa tem as suas razões quando faz um plano para emagrecer (ou engordar), e nem todas as pessoas estão insatisfeitas com o seu corpo única e exclusivamente por causa desse padrão de beleza imposto pela indústria. O que sim afirmo é que ninguém pode se declarar completamente alheio aos padrões culturais e aos valores admirados e difundidos por uma sociedade.

E a nossa sociedade ainda está saindo do medievalismo, convenhamos. Muito blábláblá teoricamente progressista e muito auê em torno do valor da variedade e da diversidade e do mundo-benetton, mas tudo isso habita mais os livros que as ruas. E as mesas dos botecos. Que se dane, eu seguirei advogando os princípios da heterogeneidade e do amor próprio mesmo assim.

Há espaço no mundo da moda e da beleza para todos os tipos de corpos e de padrões físicos. Isto é o que eu opino. O que falta é boa vontade e abertura de horizontes, em primeiro lugar. Dou toda a razão à Garance Doré quando ela diz que “seria legal a idéia de corpos diferentes serem tidos como normais em alguns anos”, mas penso que ainda estamos longe – muito longe – de conseguirmos essa democratização dos tipos físicos. Gerar consumidores frustrados ainda é uma boa tática de vendas. Viva a era do prozac!

Além disso, quebrar paradigmas e revolucionar mentes é um processo lento e doloroso. Daqui a pouco, o povo vai cansar dessa magreza toda e voltar a cultuar as gordurinhas. Aí a minha tataraneta vai escrever no blog dela que essa ditadura da gordura está enchendo o saco, e que ela já não suporta comer doce de leite e salame para engordar e ficar no padrão. Que a indústria da gordura movimenta rios de dinheiro. É tudo cíclico, meus caros. O ser humano precisa de uma obsessão para ser feliz. Ou melhor, infeliz.

Uma pequena observação: sou declaradamente contra os extremos. Anorexia e obesidade extrema são problemas graves de saúde e devem ser tratados como tal. Acho que, no meio da moda e da beleza, não há espaço – ou não deveria haver – para pessoas com problemas desse tipo. Explorar a imagem dessas pessoas, para mim, tem um nome: oportunismo.

E vocês? Estão cansados dessa ode aos ossos? Querem ver “gente como a gente” dando as caras no mundo da moda? Ou acham que uma modelo 44 profana as páginas das nossas bíblias de beleza? Sem censuras, abri vossos corações. :-)

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