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Caros visitantes,

Se vocês achavam que nada podia superar a herética Birkin de moletomI’m not the original, otário! -, que não poderia haver um objeto esteticamente mais repugnante do que aquela amorfa e disforme bolsa encardida, que aquilo era, de facto, o último grito da pilantragem tupiniquim e do mau gosto emergente – yes, nós temos banana e damos jeitinhos! -, saiba que vocês estavam redonda e amargamente enganados.

Sim, porque nem a mente mais doente poderia imaginar que alguém seria capaz de lançar a Balenciaga de moletom e a Alexa Mulberry de moletom (faltou algum modelo?). Isso é o que, tecnicamente, se conhece como originalidade. Originalidade: anotem essa palavra na sua moleskine de estimação. Algo me diz que se trata de um futuro arcaísmo. Ao menos, no vocabulário de certos comerciantes brasileiros, ela já caiu em desuso há muito tempo.

Eu entendo que algumas pessoas possam se entregar ao canibalismo oportunista e às promessas do lucro fácil isento de lágrimas e de suor. Entendo, mas não defendo. Como essas pessoas podem ser tão hipócritas, tão mesquinhas, tão nojentamente manipuladoras de dois conceitos completamentos distintos: cópia e inspiração? Desculpem-me, admiradores dos sacos toscos de moletom, mas isso não entra na minha cabeça. Nem vai entrar. Pobre Balenciaga, o sr. não merecia isso.

Alguém me explica como uma pessoa supostamente formada em moda pode querer brincar de forma tão irresponsável com esses dois conceitos? Alguém entende como uma pessoa que quer ser referência, fonte de consulta, redatora ou que simplesmente queira bancar a formadora de opinião em moda pode achar uma prática empresarial dessa envergadura algo normal? Como podem vender a sua opinião e a sua reputação dessa maneira? Pior: como podem achar isso louvável? Como se dignam a fazer propaganda disso?

Pois é.

Enquanto uns enganam e outros se deixam enganar, vamos falar sobre a diferença básica que existe entre cópia e inspiração.

As irmãs das bolsas de moletom: tudo farinha do mesmo saco. Cópia do modelo e uso leviano e oportunista do nome da marca. Lucro fácil. Isenção de lágrimas e de suor. Indecentes.

Inspiração é um estímulo de qualquer ordem que nos leva a criar algo. Poetas se inspiram, pintores se inspiram, escritores se inspiram, estilistas se inspiram, eu me inspiro, um juiz se inspira, um ator se inspira, nós nos inspiramos. Em quem? Em quê? Ora, em outros artistas, num certo estilo de escrever ou em vários deles, numa forma de se expressar, no desabrochar de uma flor, numa fotografia, numa tarde de chuva, numa sentença escrita com firmeza e sapiência por outro juiz, num conjunto de várias dessas coisas, enfim, você escolhe. Podemos nos inspirar em mil coisas.  Podemos inclusive deixar que esse elemento de inspiração transpareça nas nossas criações, nos nossos atos, no nosso trabalho, na nossa atuação ou inclusive no nosso sorriso. Um olho apurado pode até descobrir quais foram/são as nossas inspirações. Elementar, não? Sim, para mim e para você. Infelizmente, algumas pessoas dão a impressão de que faltaram às aulas de artes manuais do Jardim I e que, portanto, não sabem do que estamos falando. Na verdade, elas sabem muito bem, sim. Só que tentam deturpar esse conceito básico, custe o que custar. Espertchinhas.

Cópia é uma reprodução de algo. Eu fiquei com vontade de ser tautológica e dizer: cópia é cópia. Porque cópia é cópia e ponto final.

Inspirar-se por si só não é uma coisa bonita e copiar por si só não é uma coisa feia. Você pode se inspirar num poeta de quinta categoria e jogar o seu projeto de ficar famoso no youtube por água abaixo, assim como você pode copiar as técnicas de estudo daquela sua prima legal e responsável e passar no vestibular dos seus sonhos.

No caso dessas bolsas de moletom, não há um argumento sequer capaz de sustentar que não se trata de uma cópia feia, muito feia. Lamentável. Especialmente porque esse pessoal  que está copiando esses modelos de bolsas de grandes e renomadas marcas internacionais e fabricando-as com os piores materias possíveis são pessoas jovens. Sim, pessoas. Me recuso a usar o termo empresários. Onde está o empreendedorismo e a criatividade dessa gente? Em que lugar a inteligência e o bom senso delas se perdeu? Esses jovens de baixo nível usam tudo tóxico, diria a senhora minha vizinha. E o pior é que não se trata apenas de falta de talento, de ausência total de criatividade, de oportunismo e de péssimos e predatórios hábitos empresariais; se trata também de falta de ética e inclusive de compromisso com os próprios clientes. Vejamos:

Erro 1: copiar. Copiar criações alheias para ganhar dinheiro, por si só, é de mau gosto. É feio e deselegante. É picaretagem, sabe? Copiar não faz o globo girar.

Erro 2: se vai copiar, copie direito e nos poupe desse vexame.

Erro 3: usar o nome da marca original, nem que seja para fazer piadinha. Acredite em mim, anunciar uma Balenciaga de moletom ou uma Balenciaguinha cute fofinha é pior que anunciar uma Palenciaga. O mico do chinês é menor que o seu. Porque nem o nome da marca você respeitou, caro salafrário. Aliás, você está usando o modelo e o nome da marca para vender a sua cópia vagabunda.

Erro 4: tentar passar a imagem de que é tudo muito divertido, de que era só uma brincadeira, uma maneira lúdica de interagir com os clássicos do mainstream fashionista, uma homenagem, uma releitura (ãããhhnnn?). A sua brincadeira está sendo vendida por um salário mínimo, mequetrefe. E eu pergunto: por quê?

Erro 5: usar um material vagabundo não torna a coisa mais divertida e simpática. Usar moletom só amplifica o nível de vulgaridade da sua prática empresarial e do produto que você quer vender.

Erro 6: explorar aquelas pessoas que, por não terem o dinheiro suficiente para comprar as originais, se conformam com as genéricas… de moletom.

Erro 7: conseguir que pessoas influentes que, sim, têm dinheiro para as originais desfilem por aí com a de moletom pendurada no braço. Nem todo mundo vai saber que elas são suas amigas, que elas foram patrocinadas ou que elas estão a fim de serem contratadas por você.

Erro 8: conseguir que pessoas influentes que não têm dinheiro para as originais desfilem por aí com a de moletom pendurada no braço. Nem todo mundo vai saber que elas são suas amigas, que elas foram patrocinadas ou que elas estão a fim de serem contratadas por você.

Erro 9: aproveitar-se do fato de que nem a Hermès, nem a Balenciaga nem a Mulberry (hummm, essa talvez sim) vão se preocupar com essas cópias vagabundas que não representam a menor concorrência para elas. Elas não têm tempo para a sua bolsa de moletom, porque estão preocupadas demais com os chineses que fazem réplicas perfeitas das bolsas delas. Ah, aposto que você condena as réplicas.

Erro 10: investir na propagação de uma moral dupla e questionável. Qualquer cópia é condenável, seja ela uma cópia perfeita  nível I ou uma coisa burda vendida por imigrantes ilegais, exceto as cópias feitas em moletom e com péssimo acabamento por um “seleto” grupinho de amigas que decidiram brincar de fazer negócios? Essa é a lógica ilógica de vocês. Aham.

Ah, De Chanel, mas a Zara copia. A Zara copia, a Zara copia, a Zara copia, lálálá!

Sim, a Zara também copia, e já copiou muito mais. Só que a Zara se ferrou muitas vezes e se dispôs a pagar o preço por isso. Aliás, se vocês quiserem, podemos falar sobre a Zara algum dia desses. Veremos como o dono da Zara, que hoje é o 10º homem mais rico do planeta, montou um império à base de espionagem industrial e de tráfico de cocaína. E, ah, não se esqueçam de que a Zara não usa o nome das marcas para vender e que, na maioria das vezes, eles ficam bem dentro do limite da inspiração. Eles já aprenderam como se faz isso, são especialistas, o departamento criativo e especialmente o departamento jurídico deles estão aí para provar. Desnecessário dizer que a Zara tampouco faz brincadeirinhas estúpidas do tipo I’m not the original, clientes imbecis que engolem tudo que eu quero!

E digo mais: a Zara já incomodou as grandes marcas no passado. Hoje ela é uma peça essencial da indústria. Inclusive os mais altos circuitos do mundo fashion já engoliram a Zara há muito tempo. Não comparem essas lojinhas brasileiras de quinta categoria que fabricam bolsas de moletom e que usam de forma leviana o nome de marcas consolidadas à Zara. Por falar nisso, vocês sabem quanto custa construir e consolidar uma marca no mercado?

Essas lojinhas apenas representam o pior do empresariado tupiniquim, como há muito tempo atrás a Zara representou o pior do empresariado espanhol. E agora eu lanço um desafio: dou 20 anos para essas lojecas chegarem ao nível da Zara. Não me importarei com as falcatruas. Não me importarei com nada. Se, em 20 anos, os idealizadores das bolsas de moletom chegarem ao Top 20 da Forbes, eu me retratarei publicamente e retirarei essa denúncia explícita do nojo que sinto por eles e pelas bolsinhas de moletom bregas, cafonas e horrorosas que eles insistem em lançar para o desgosto geral da nação. 1, 2, 3, valendo!

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