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Confesso que pensei duas vezes antes de começar este post; não sabia se seria legal publicar dois textos seguidos sobre o mesmo assunto, ainda que com tons totalmente diferentes. No entanto, como eu havia me comprometido, e inclusive cheguei a ler hoje uma edição atual da revista para poder comparar com a linha editorial seguida na “minha época”, decidi escrevê-lo. Além do mais, esta tarde estive lendo algumas coisas sobre o conceito de poder desenvolvido por Foucault. Basicamente, ele sustenta que o poder é a capacidade de conduzir, de forma não necessariamente física, as condutas alheias. Para ele, o que move ou bloqueia uma sociedade não é um poder centralizado e sim uma multidão de pequenos poderes.

Essas leituras vieram bem a calhar, e também me animaram a escrever o post. Porque o poder exercido por qualquer veículo de comunicação pode – e deve – ser questionado e discutido sempre. Afinal, problematizar é preciso. Muitas vezes, coisas aparentemente inquestionáveis e inofensivas pedem para ser repensadas, discutidas, interrogadas, etc.

Fazendo uma pequena comparação com a revista antes e agora, percebi que, “no meu tempo”, as matérias eram mais voltadas para a moda. Como bem frisou a Iara, a revista incentivava um padrão de consumo que nem sempre a classe média podia acompanhar. Agora, percebi que a revista tem um enfoque maior em matérias de comportamento. Mas a coisa não mudou praticamente nada nesses últimos 13 anos.

Vamos lá, coisas que critico na Capricho, tentando ser o mais objetiva possível:

1) O discurso incoerente: essa talvez seja a coisa criticável mais escancaradamente gritante da revista. Desculpem-me por repetir a mesma foto usada no post anterior, mas vejamos a capa da revista a título de exemplificação. Podemos ver uma declaração em destaque da Marjorie Estiano, na que ele diz: “não gosto de copiar os outros”. Duas linhas abaixo, lemos: “como copiar o look da Kristen Stewart”. Vejam bem, estamos falando da capa da revista! No interior, sabemos que rolam mais e mais contradições, do tipo: uma matéria falando de auto-estima e de como aprender a se aceitar + oito matérias sobre como combater as celulites, como emagrecer, como roubar o look da Fulana, como ser uma it-girl, etc. Seja você mesma mas imite a Taylor Swift. De dar um nó em qualquer cabeça.

2) A voz de autoridade “dos meninos”: ah, os meninos! Vocês já viram a importância que a revista dá à opinião dos meninos? O que os meninos opinam dos esmaltes vermelhos, o que os meninos acham das garotas com franja, o que os meninos fazem quando levam um fora, que tipo de calça eles acham que deixa as meninas mais gostosas favorecidas. Não é um pouco triste pensar todas as escolhas de uma menina têm como objetivo final a aprovação do sexo oposto? Parece que, para que uma menina forme uma opinião sobre determinada coisa, é necessário que ela conheça antes a visão dos meninos. Não é um pouco lamentável que os meninos tenham toda essa voz de autoridade? Tudo gira em torno deles? Do que eles pensam? Essa é a mensagem final?

3) Os padrões de beleza: certo, nesse caso, a Capricho é apenas mais um meio de comunicação que reproduz os mesmos conceitos sobre o padrão de beleza ideal e desejável. Não é mérito exclusivo da revista. Só que esta revista em concreto se dirige a um público em processo de formação, e, portanto, deveria ter o compromisso social e ético de valorizar a beleza que há na diversidade. No exemplar que tenho em mãos não há uma foto sequer de um ser humano que não seja branco, por exemplo. O que não corresponde, nem de longe, à realidade do povo brasileiro, certo? A única menina não-magra que aparece é estrela de uma matéria sobre o bullying que sofreu na escola justamente por estar “acima do peso”.

4) Os padrões de comportamento: ocorre mais ou menos a mesma coisa relatada no item anterior. Todos têm que ser iguais, todos devem seguir fórmulas prontas e pasteurizadas. Não há espaço para as diferenças e a diversidade. Comporte-se assim ou você será o esquisitinho da turma. Comporte-se assim e sinta-se no direito de zoar o esquisitinho da turma, ou, no mínimo, de olhar de lado para ele. Depois a gente faz uma matéria para as pessoas aprenderem a lidar com bullying, por exemplo. É incrível como uma revista pode querer dar fórmulas para combater fenômenos que ela mesma contribui para gerar, direta ou indiretamente.

5) A mania de rotular as pessoas: embora a revista exalte esse modelo de beleza determinado em praticamente todas as páginas, um belo dia eles resolvem publicar uma matéria sobre as “meninas acima do peso” ou sobre as “meninas que não gostam do seu cabelo enrolado” ou sobre os “filhos de mães solteiras”. Sempre deixando bem claro que, no fundo, essas pessoas que não correspondem ao padrãozinho são espécies de extraterrestres. Além do discurso vitimizante dessas pessoas, que eu particularmente detesto, vocês já viram que eles sempre deixam bem claro que são essas pessoas as que têm de trabalhar a auto-aceitação? A alerta nunca é no sentido de que os outros as aceitem e as respeitem. Então, se havia uma hipotética boa intenção aqui, sinto muito, mas ela ficou perdida no caminho, entre um rótulo e outro.

6) Indução à submissão: é incrível como podemos perceber que, em quase todas as matérias sobre relacionamentos, a menina é induzida a ser a submissa da história. “Que tal mudar o visual e pegar o cara de surpresa?”, “para agradar, dê presentinhos sem que ele esteja esperando”, “arrase no beijo: use um gloss com gostinho diferente ou invente jeitos para tirar o ar deles”. Esses são alguns exemplos que eu acabo de tirar da matéria “Diga não à rotina”, que se dedica a ensinar às meninas, desde cedo, que elas são as únicas responsáveis pelo sucesso dos relacionamentos. E a carregar o peso nas costas caso o relacionamento dê errado. Quem mandou deixar a rotina tomar conta do pedaço? É tanto clichê, que eu fico até enjoada. Desculpem-me.

7) A cultura das listas: e, consequentemente, da superficialidade e da curiosidade passageira pelas coisas. Os 10 melhores filmes de amor, os 5 lugares imperdíveis para namorar, as 10 coisas que você precisa saber sobre tal pessoa, as 7 melhores formas de terminar o seu namoro. Bom, eu mesma adoro fazer listas, e sempre respondo a memes facebookísticos do tipo “os seus quinze dramas preferidos” e coisas do tipo. Só que as minhas listas são meramente pessoais. Não estou ditando para milhares de adolescentes quais são as coisas que elas devem amar, ver, ler, conhecer, né?

8) A linguagem limitada e limitadora: a revista peca pelo excesso de gírias e de estrangeirismos. Convenhamos que os redatores da Capricho não são os melhores amigos da nossa língua. Uma coisa é escrever de modo acessível. Outra coisa totalmente diferente é adotar uma linguagem gugu-dadá com um vocabulário pobre e altamente restrito.

Para mais críticas excelentes sobre a revista, leiam os comentários do post anterior (momento tiete: amo os comentários que vocês deixam por aqui, obrigada!). Ou então joguem “revista capricho + pdf” no google e encontrem estudos interessantíssimos sobre o tema, como por exemplo: “Constituindo sujeitos anoréxicos: discursos da revista Capricho”.

Para finalizar, sei que um dos argumentos mais fortes dos defensores da revista é que ela fala sobre sexo e outros assuntos que muitas vezes não são discutidos em casa. Sim, concordo que, para as meninas que crescem em famílias fechadas e cheias de tabus, esse tipo de leitura pode ser útil em alguns pontos. Mas eu prefiro criticar as famílias que não dão educação sexual e esclarecimentos sobre certos assuntos importantes aos filhos a elogiar uma revista que está desempenhando um papel que não necessariamente teria que ser desempenhado por ela, ora.

Também sei que há milhares de outros fatores na formação de um adolescente, milhares de micropoderes, mas eu hoje decidi falar deste micropoder exercida por esta revista em concreto. ;-)

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