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Nunca me esqueço daquele fatídico dia, na minha adolescência, quando eu pedi aos meus pais que me deixassem trocar a assinatura das revistinhas da Turma da Mônica pela assinatura da Capricho. Me lembro da cara dos meus pais até hoje, aquele olharzinho perdido que revelava o fim do tombo cataclismal da ficha: “a nossa filha já não é um bebêzinho”. Bom, naquele momento, eles me disseram que, em primeiro lugar, iríamos a uma banca comprar um exemplar para que eles dessem uma olhada no conteúdo da revista. Eu já conhecia a Capricho porque as meninas do meu colégio sempre a compravam. Achei um exagero da parte dos meus pais, afinal, estávamos falando de uma revista feita para adolescentes, que mal poderia haver? A minha mãe sempre deixava as revistas que ela assinava – Elle, Marie Claire, Cláudia, Vogue – ao meu alcance, e aquelas revistas, sim, “eram piores porque estavam cheias de páginas que falavam sobre sexo”.

Naquele mesmo dia, compramos a revista, que saltitou de um lado ao outro da casa, passando por várias mãos. No dia seguinte, durante o café da manhã, o meu pai me deu o veredito final: “essa revista parece inofensiva, mas não é; isso é o que me preocupa”. A minha mãe balançou a cabeça, e me disse que eu poderia comprar a revista quando quisesse, mas que era melhor não assiná-la, porque em algum momento eu poderia enjoar dela. Fim da cena familiar.

Claro que há 13 anos (me senti uma idosa agora) eu não entendi a postura dos meus pais e até sentia um leve gostinho de rebeldia toda vez que comprava a revista. Realmente, não demorei muito em enjoar dela, como bem havia previsto a minha mãe. No entanto, depois de muito tempo, finalmente eu pude perceber que – é verdade – a Capricho pode parecer inofensiva, mas definitivamente não é. Basta que se adote uma nova perspectiva para perceber isso. Embora eu não tenha sido uma leitora fiel, o estrago que essa revista causou na minha mente adolescente não foi leve. E eu explicarei o porquê.

Justamente quando eu me interessei pela leitura da Capricho, coincidiu que as minhas celulites começaram a aparecer. Rá. Eu sempre lia matérias sobre celulite nas revistas da minha mãe, mas aquelas revistas não falavam do meu universo, das minhas coisas. Havia um distanciamento. E eu lembro que a Capricho tinha uma espécie de obsessão com as – altamente normais, diga-se de passagem – celulites e estrias adolescentes, porque em absolutamente todas as edições sempre havia uma matéria sobre estrias e outra sobre celulite: meu Deus, eu tenho celulite, o que eu faço agora? Como combater celulite. Como evitar o aparecimento de estrias. Mude a sua alimentação. Vá a um endocrinologista. Prove esse cremes milagrosos. Faça drenagem linfática. Tome cápsulas de colágeno. Não beba refrigerante. Mensagens constantes, mesmo que, duas páginas depois, houvesse uma propaganda da coca-cola incitando os leitores a aproveitarem a vida. Living la vida loca. Tudo bem.

Para resumir o meu drama adolescente, apenas vos digo que eu segui cegamente todos os conselhos – ainda que tivessem tom de imposição mesmo – dados pela revista. Fui a oitocentos médicos, economizei minhas mesadas para comprar cremes caríssimos, comecei a fazer drenagem linfática regularmente, desesperei a minha mãe, fiquei completamente desvairada ao não saber lidar com a nova realidade do meu corpo. E a Capricho virou a minha aliada na minha batalha anticelulítica, a minha Bíblia, a única coisa que me entendia. É, porque ninguém me entendia. Os médicos e a minha família me diziam que eu tinha pouquíssimas celulites, que era algo normal na puberdade, que “todas as meninas tinham”. Que eu era uma garota altamente saudável, que tinha uma boa alimentação e praticava esportes, logo, não deveria me preocupar. Nada disso me consolava. O mais curioso é que várias amigas minhas viviam o mesmo drama na época, mas nunca falávamos desse tema entre nós. Descobri isso pela minha mãe, muitos anos depois. Ela me disse que trocava confidências com outras mães sobre essas obsessões adolescentes, mas que a cláusula de confidencialidade era muito séria. Afinal, menstruação e celulite eram tabus para as meninas “do meu tempo” (hohoho). Não queríamos as nossas intimidades na boca do povo das nossas mães.

Mas a Capricho era diferente. Ah, a Capricho era a única que me compreendia porque era a única que concordava comigo: celulites são uma praga, você tem toda razão de fazer tudo que estiver ao seu alcance para combatê-las, aliás, é isso mesmo que você tem que fazer: lutar, lutar, lutar. Celulites são uma aberração, uma coisa que abala a sua auto-estima, uma coisa que te faz ter vergonha do seu corpo; você tem toda razão de não querer tirar a canga na praia. O que eu não percebia naquele momento é que, na verdade, não era a revista a que concordava comigo. Eu é que estava concordando com tudo aquilo que a revista me dizia.

Um pequeno adendo: embora pareça que eu estou contando a história de uma forma excessivamente dramática, saibam que, naquela época, eu vivi isso como um verdadeiro drama mesmo. Qualquer coisinha, por muito tola que possa parecer, pode ser sentida como um apocalipse por um adolescente. E é justamente por isso que eu voltarei a falar da Capricho – por ser a revista dirigida a adolescentes que melhor conheço – no seguinte post. Por muita estrutura familiar e acesso à boa educação que se tenha, cabeça de adolescente é uma coisa complicada delicada. E eu tenho muitas críticas a fazer à Capricho.

Voltando… como o meu pequeno drama acabou? Bem, uma das táticas que usei loucamente para combater as minhas celulites foi a retomada do hábito de andar de patins. Hábito que refrescou a minha mente e me trouxe a sensação de liberdade. Porque eu troquei a obsessão com as celulites pela obsessão por andar de patins. Em outras palavras, troquei a capricho pelo meu primeiro rollerblade. Muito menos afetada e menos paranóica, passei a aceitar as minhas celulites, as minhas estrias e o meu corpo. Aceitação que dura até hoje, quando obviamente tenho o triplo de celulites que naquela época, néam, amigos?

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