depoimento: crocs e preconceito no mundo acadêmico

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O depoimento que recebi dessa leitora tem uma tônica bem diferente dos depoimentos publicados até agora. Ela fala do preconceito que reina no mundo científico-acadêmico em relação às pessoas que gostam de cuidar da própria aparência. Esse é um tema delicado, e eu já tinha pensado em escrever sobre algo relacionado aqui no blog: até que ponto estamos – ou deveríamos ou não estar – dispostos a enfrentar convenções de qualquer tipo (e existem mil) na hora de nos vestirmos? Seguir ou não essas convenções parece um assunto simples, afinal, podemos defender a priori que cada um use o que quiser e viva a liberdade e o Século XXI e o afrouxamento das amarras do tradicionalismo, mas na prática as coisas são mais complexas do que aparentam.

Direcionando essa reflexão para o mundo do trabalho, existem profissões mais abertas do que outras em relação à aparência. Mesmo assim, eu tenho a impressão de que toda profissão tem um certo perfil determinado. Digamos que existe uma espécie de protocolo informal em relação à maneira como cada pessoa deve vestir-se de acordo com a sua profissão. Refiro-me ao protocolo informal, pois, do formal, do obrigatório, não se tem muito como fugir (penso nos cargos que exigem uso de uniforme).

Então, o ponto é: seguimos ou não esses protocolos informais? Cultivar a aparência profissional que se espera de cada um de nós é uma forma de autopreservação, um caminho seguro, um mero cumprimento de papéis. E as pessoas que não se identificam com essas imagens pré-estabelecidas, ou que simplesmente não querem corresponder às expectativas e seguir os padrões? Estão certas, erradas? Há um preço a se pagar por essa escolha?

De modo geral, parece  que, sim, há um preço. Claro que há exceções e inclusive variações de acordo com a cultura. No mundo acadêmico, por exemplo, existe um preconceito latente em relação às pessoas que se ocupam de coisas classificadas de forma praticamente unânime como fúteis: beleza, roupas, aparência. Quando li este depoimento, me lembrei de uma professora excelente que tive. Para mim, era uma professora exemplar: culta, didática, eloquente, competente, aberta, solícita. Não demorei a descobrir que ela, apesar de todas as suas qualidades inquestionáveis e de uma trajetória acadêmica brilhante, era alvo de várias piadinhas entre professores e alunos. Essa professora era ridicularizada nas rodinhas imbecis e tinha vários apelidinhos nada simpáticos apenas porque tinha uma “aparência cultivada” (sempre estava bronzeada, maquiada, arrumadíssima e de salto).

No mundo acadêmico, se valoriza um certo desleixamento limpinho, interpretado como um sinal de que a vida intelectual daquela pessoal é tão fértil, que ela simplesmente não tem tempo para “essas coisas fúteis”. Claro que, no fundo, o mundo acadêmico também é machista (e esse machismo também é propagado por algumas mulheres que conseguiram o seu lugar ao sol). Uma amiga minha nunca se sentiu respeitada numa universidade onde conseguiu uma vaga como “contratada” (por méritos próprios), pois diziam que “patricinha, novinha e bonita daquele jeito era óbvio que havia um padrinho por trás”. O resultado? Ela foi excluída abertamente por outros professores (maioria mulheres), chegou a receber cantadas de alguns alunos e obviamente acabou ficando pouco tempo no trabalho. Tudo bem, isso tudo deu forças para que ela conseguisse um cargo público numa instituição muito mais interessante, na que ela se veste como bem quer e entende e não é desprezada por isso. E, ah, isso não ocorreu no Brasil. Ou seja, em outros países também existe esse conservadorismo no meio acadêmico .

Não entendo e chego a me irritar profundamente. A universidade deveria ser um reflexo da diversidade que existe na sociedade, um espaço heterogêneo e aberto onde cada um poderia ser como é. Afinal, estamos falando de um mundo no que o conhecimento e as idéias deveriam reinar, e tudo isso independe da forma como cada um se veste ou se cuida, dos seus crocs ou das suas ankle boots. Por essas e outras (muitas outras), a minha decepção com o mundo acadêmico é tão grande. A universidade não deveria ser uma ilha, um mundo paralelo cercado de muros e de regrinhas limitadoras.

Ao depoimento:

Primeiro, quero te parabenizar pelo blog, adoro ele, quando descobri li tudo no mesmo dia e fiquei feliz que voltou a ativa.
Enfim, vou fazer um desabafo. Se for publicar no blog por favor não coloque meu nome, me apelide do que qusier =P!
É um desabafo sobre os preconceitos que as pessoas tem com relação a aparencia, tanto das que acham essencial ter uma LV (que particularmente não gosto), tanto das que acham que usar maquiagem é coisa de gente fútil e a toa.
Durante a adolescencia tive a fase de só usar preto, mas passou, mas continuo amando tachas desde aquela época (aliás, adorei a moda das tachas pela facilidade de encontrar roupas de qualidade com tachas e coturnos sem ser em loja militar, hahahaha). Depois na faculdade, de biologia, no inicio era só camiseta, jeans e sapatilha, só! Não usava make, meu cabelo era totalmente descuidado, igual 95% dos meus colegas de faculdade. Até que descobri o rímel, depois blush, foi indo e decidi me cuidar mais (sou branquela, loira do olho claro, apagada, sem cilio nem sombrancelha, pense na diferente que só o rímel já faz!). Via as moças na TV com a make linda e decidi aprender, assim como a usar salto e pensar na roupa a usar, não só vestir a primeira que visse. Isso foi no último ano da faculdade. Aí que vi como as pessoas são preconceituosas.

Quando entrei no mestrado gastei minha primeira bolsa com roupas, coisa que nunca tinha feito. Passei a me vestir melhor, e nisso alguns blogs de moda ajudaram e muito, assim como os blogs de maquiagem. Confesso que antes lia uns que hoje peguei nojo, com suas tendencinhas, coisas que tem que ter e esnobices. Mas quem está perdida, como foi meu caso, esses blogs ajudam, te dão uma norteada,  muitos dos que sigo hoje encontrei nesses, mas tem que saber filtrar. Mesmo neles tem posts legais. Passei a ir na dermatologista, fazer exercicio, hidratação no cabelo, cuidar mais de mim sabe. E isso foi ótimo, antes eu me achava feia e acho que por isso agia como se moda fosse futilidade. Minha mãe adorou minha mudança, hahaha, meu namorado também gostou e super apoiou eu me cuidar mais. Mas aí vi que pessoas mais estudadas que deveriam ser mais abertas muitas vezes são tão preonceituosas, principalmente no meio que vivo, que é o cientifico, academico.

Nesse meio a maioria não se cuida. Conheço gente que vai trabalhar como se fosse fazer a faxina em casa no sábado a tarde, são famosos pelas crocs e roupas de gosto (muito) duvidoso, e muitos desses (claro, não todos) se acham melhores que todas as pessoas fúteis que gastam seu tempo cuidado da pele! Rola um super preconceito com quem se veste bem. Onde estudo mesmo, por parte dos outros alunos, é brincadeira todo dia, acham o máximo falar em alto e bom som que não tem tempo para futilidades como pintar as unhas ou se maquiar de manhã. Felizmente isso não acontece com os meus professores, mas já ouvi cada história. Pelo que me contaram tem muito essa bobagem nos EUA, onde uma pesquisadora com decote não tem o mesmo respeito que uma vestida que nem homem.
Isso me deixa triste, de verdade. Não por que é comigo. Mas ver o preconceito que rola por ambos os lados, sendo que cada um se acha melhor do que o outro. Ninguém é melhor do que ninguém. Ninguém é melhor por ter a “it bolsa” ou por não ter nenhum bolsa! Parece até que é impossível alguém ler Darwin e usar batom da MAC! Vaidade não tem correlação inversa com inteligencia!

Enfim, ficou enorme. É um desabafo.
Será que mais alguém passa pela mesma situação?
Abraços e parabéns pelo blog!

Obrigada à leitora que enviou o depoimento! ;-)

dcnl tumblr

Pessoal,

Este mês as coisas vão continuar corridas para mim e não sei se terei tempo para manter um bom ritmo de posts aqui no blog. Então, decidi criar um tumblr para não perder contato com o mundo virtual, afinal, interagir com os colega muito me faz feliz. E essa ferramenta é bem prática e dinâmica.

Quem quiser divulgar os seus tumblrs nos comentários fique à vontade. Também agradeço sugestões de contas legais. :-)

Nos vemos por lá! E no twitter, claro.

Beijos!

mac, rodarte, feminicídio, frivolidade e polêmica

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E não é que a MAC conseguiu chafurdar o pé na lama? O anúncio da sua linha de maquiagens em parceria com a Rodarte não poderia ter causado mais comoção e indignação, ao frivolizar os asssassinatos de mulheres que ocorrem frequentemente em Ciudad Juárez, México. Parece que para tudo há um limite, menos para a bizarrice publicitária.

Quando a MAC lançou a campanha publicitária da linha de maquiagens assinada pela Rodarte e declaradamente inspirada no México, a blogosfera estrangeira foi inundada de posts e sobretudo de comentários que manifestavam um profundo desconforto com a proposta e com o tom da mesma. Parêntesis: aproveito para expressar o meu alívio ao comprovar que a blogosfera de moda e beleza – pelo menos, a estrangeira – está aberta a manifestar críticas embasadas e construtivas sobre temas polêmicos. Eu acredito que os blogs são um grande instrumento de contestação e que podem desempenhar um papel interessante na sociedade, e o caso MAC/Rodarte é uma prova disso.

Voltando… pelas fotos, dá para ver que a campanha tinha um ar notívago e sombrio, digamos assim, com as modelos bem pálidas e com olheiras profundas. Até aí, nenhum problema, já que estamos falando de Rodarte, né? A marca segue mesmo essa ondinha. Aí, olhando com mais calma, percebemos que as modelos simulam defuntos. Bem, como a linha foi inspirada no México, esse ar poderia perfeitamente ser uma alusão ao Día de Muertos. Para quem não conhece a tradição, no dia de Finados ocorre uma grande celebração no México. As famílias fazem uma verdadeira festa nos cemitérios, levam as comidas preferidas dos seus familiares falecidos, tocam música, fazem doces em forma de caveiras e de crânios, enfim. Só que essa teoria vai por água abaixo quando vemos os nomes dos produtos: sombra Border Town (cidade de fronteira), esmaltes Factory (fábrica) e Juárez, batons Ghost Town (cidade-fantasma) e Sleepless (sem dormir), blush Quinceañera (menina de quinze anos), gloss Del Norte (nome anterior de Ciudad Juárez).

Todos esses termos se referem ao verdadeiro drama social que se vive em Juárez, onde centenas de mulheres morrem assassinadas de forma brutal a cada ano. O nome técnico do fenômeno, altamente complexo e com grande repercussão internacional, é feminicídio. No fundo, Ciudad Juárez é praticamente sinônimo de violência machista e essa triste realidade foi usada como mote publicitário por uma firma do ramo de cosmética e maquiagem. A rejeição obviamente foi imediata e as marcas foram fortemente criticadas, não só pelos consumidores como também pelas associações de direitos humanos, locais e globais.

Tanto a MAC como a Rodarte tiveram de fazer declarações sobre a polêmica gerada pela campanha. Num primeiro momento, as duas empresas afirmaram que a intenção era nobre e que elas queriam chamar atenção para os problemas dessa cidade. Ninguém engoliu a desculpa esfarrapada, então a MAC se comprometeu a destinar uma parte do dinheiro arrecadado a organizações que combatem o feminicídio em Juárez e pediu desculpas por ter ofendido os consumidores (curioso: não pediram desculpas às mulheres de Juárez). A Rodarte teve uma postura lamentável, na minha opinião, pois continuou a bater na tecla de que a situação de Juárez era importante para a marca, mas que a intenção real da coleção era “celebrar a beleza da paisagem e das pessoas” da região. Aham, contem outra.

Tudo bem que as estilistas estivessem sensibilizadas pelo problema, até acredito nisso, mas essa não era a forma de contribuir em nenhum sentido. Se desde o começo eles tivessem declarado que uma parte da verba se destinaria a ajudar, e tivessem feito a campanha de uma forma humana e com o aval das associações, tudo bem. Mas não foi o caso. Enfim, a história não acabou assim. As associações não aceitaram a proposta da MAC e disseram que não receberiam um centavo sequer gerado pela coleção. Finalmente, depois de toda a confusão, a MAC decidiu cancelar a linha. Eu me pergunto como essas empresas puderam lançar uma campanha potencialmente bombástica dessas sem um “plano de crise” preparado.

Sobre este caso, reforço idéias que seguem a mesma linha do que expressei no post anterior. Acho lamentável, hipócrita e patético que a MAC e a Rodarte tenham explorado um problema social com fins comerciais. Dar uma aura etérea e romantizada ao feminicídio para promover maquiagem? Sem chance para mim. Se a MAC e a Rodarte estivessem realmente interessadas nos problemas de Juárez, deveriam ter procurado uma forma de ajudar. Tão simples, ora. Abraçar causas sociais e/ou ambientais não deixa de ser uma estratégia comercial para as empresas, todos sabemos disso, mas há mil formas de fazê-lo. Então, não venham com esse papo de gerar discussão sobre o problema e conseguir visibilidade, blábláblá.

Nesse caso, o gosto que fica na boca é o do oportunismo publicitário: vamos criar um pouquinho de polêmica e conseguir que falem muito da nossa coleção? Mídia espontânea é o que há. Sem citar a falta de sensibilidade, a irresponsabilidade e inclusive o escárnio. Desculpem-me, mas é impossível acreditar que a intenção era nobre. Essa justificativa não funciona e está tão batida quanto a fórmula publicitária de “conseguir repercussão a qualquer custo”. Não é só porque uma marca gera polêmica e consegue atenção para o seu produto, que o saldo final vai ser positivo. Se todo mundo falar mal, como fica? Não fica. Aí está, linha cancelada.

Para mim, foi impossível não fazer uma analogia. Imaginem se a MAC lançasse uma linha de maquiagem inspirada no Brasil: sombra Crack, batom Comando Vermelho, blush Periferia Reprimida, base Poluição, gloss Chuva Ácida, esmalte Amazônia em Chamas. Seria lindo. Todo mundo ia adorar, né? Então.

Para finalizar, vamos definir os papéis: você está aqui para vender maquiagem, fotografar editorial, promover uma marca, ganhar dinheiro ou para brincar de ONG?

UPDATE: recomendo este excelente post sobre o assunto, o mais completo que li até agora na blogosfera brasileira.

podem botar água no feijão…

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… que eu estou voltando.

:-)

Queridos leitores, sei que devo uma explicação sobre o meu sumiço repentino. Como posso dizer? As coisas complicaram para o meu lado, nem deu tempo de processar e avisar. Fiz duas viagens totalmente imprevistas nas últimas semanas, a minha mãe vem para cá daqui a alguns dias e eu decidi fazer algumas obras  aqui em casa, também estou preparando tudo para entrar em ritmo (meio) de férias, sem contar que aqui é verão e o calor está sufocante. A correria tem sido excessiva, não sobra um segundo para entrar aqui e cultivar uma vida virtual minimamente saudável. Desculpem-me pela falta de posts e pela demora para responder aos emails e aos tuítes; espero corrigir isso em breve. Obrigada a todos pelas mensagens e pelas visitas. Valorizo muito o suporte de vocês. :-)

Aproveitando o ensejo, não posso deixar de manifestar, de forma póstuma, o meu horror com o editorial Water & Oil da Vogue Itália de agosto. Sinceramente, nem li muito sobre a arquitetura conceitual (cof, cof!) por trás do trabalho, pois era óbvio que o meu estômago embrulharia com as prováveis e previsíveis desculpas baratas e com a filosofia de boteco Cavalli* cuja finalidade seria a de justificar o injustificável. Esse editorial foi, simplesmente, o último barraco do oportunismo tétrico e repugnante. Um trabalho publicitário regido pela total falta de escrúpulos. Usar uma desgraça daquela dimensão para vender blusinha Miu Miu e brinquinho Swarovski? Poupem-me.

Um dos maiores problemas do mundinho da moda é que algumas pessoas que o habitam se transformam em extraterrestres. Elas realmente acreditam que um trapinho de seda grifado – trajado por uma modeluca exótica (argh!) e clicado pelo fotógrafo estrelinha excêntrica (argh!) do momento – justifica qualquer coisa. Qualquer coisa, mesmo. De eslavas à beira da morte desfilando a sua morbosidade cadavérica e pálida a editoriais que ridicularizam e humilham pessoas pobres e exploradas (primeira Vogue indiana da história, quem lembra?), passando pela propagação de qualquer slogan retrógrado revestido com uma aurinha cool. Sem citar a elevação de personagens que não acrescentam nada à vida de ninguém ao olimpo de celebridades fashionistas teoricamente inspiradoras. E agora eu pergunto: alguém cai nesses contos de (e para) bobos? O mais triste, caros perplexos, é que muita gente cai. E querem saber? Que a queda seja lindamente espatifante. E, do alto da minha laje, ainda estarei batendo palminhas e dando saltinhos de alegria timburtoniana, com o penteado todo trabalhado nos Bumpits.

Acho que já passou da hora de esse povo alucinado parar de acreditar nessa suposta missão messiânico-profética da moda. Esse discurso cansou, pronto. Seguinte!

Tudo bem que, de vez em quando, se extrapolem alguns papéis e se levantem algumas bandeiras e se forcem algumas barras e se adotem métodos menos ortodoxos de expressão e de comunicação, mas coisas como esse editorial chegam a ser kafkianas. É o tipo de coisa que… que… que… sei lá! Para quê? Por quê? Qual era a do negócio? Alguém anotou a placa?

Particularmente, eu adoro uma subversão, uma sacudida na moral, uma exagerada na tentativa de chamar atenção a uma causa interessante. Acho ótimo que as bundas-gordas levantem dos sofás para dar uma chacoalhada. Mas que essa sacudida, essa exagerada, essa subversão, essa chacolhada tenha algo a dizer, algo a questionar, algo a transformar, algo a debater.

Vocês realmente acreditam que um editorial como esse tem algo a dizer, a questionar, a transformar, a debater? Eu não acredito.

Moda, faça uma coisa: atenha-se ao seu papel. Quando qualquer ser humano é vítima de um desastre ecológico, a última coisa que importa são os trapinhos e os produtinhos divulgados pela Vogue. A moda pode ser um reflexo da realidade sócio-política, sim. Só que a realidade sócio-política não é um reflexo da moda. Nem vai ser. Menos, tá? Fica a dica.

Steven Maisel, um recado: muda a fórmula, vai. Não é só porque deu certo uma vez, que vai dar certo sempre. Deixando claro que “dar certo”, para gente como você, é sinônimo de “falem mal, mas falem de mim”. Fórmula defasada e ultrapassada, de toda forma, que cai por terra quando surge a seguinte questão: e se todo mundo falar mal? Ativa a criatividade aí, amigo. A Franca puxa o seu saco, mas a gente não. Me liga.

Beijos de água, sal e petróleo de uma garota que não quer se jogar da sua laje.

* Conhecem o boteco do Cavalli? Diversificação dos negócios é o nome técnico da coisa, zzzzzz.

Crédito das fotos: Vogue Itália, agosto de 2010.

alguns avisos aos navegantes

Caros leitores,

Estou escrevendo este post para falar de algumas coisas que vão mudar no blog daqui para frente e para esclarecer algumas outras. Peço desculpas de antemão a todas as pessoas que não têm nada que ver com as chatices que relato abaixo, ou seja, 98% das pessoas que lêem este blog.

Blog de moda:

Posso falar de alguns temas relacionados a esse mundo, mas este não é – nem nunca foi – um blog de moda, definitivamente. Gosto de falar de consumo, de comportamento, de discursos publicitários, de cultura, de temas gerais que me interessem ou que interessem aos meus leitores. Nada que me restrinja, portanto.

Blog sobre blogs de moda:

Este não é um blog sobre blogs de moda. Desistam. Dos 83 posts publicados até hoje, apenas dois falaram do assunto “blogs de moda”. Escrevi um post sobre coisas que não entendo nos blogs de moda e publiquei aquele post sobre o lado b dos blogs de moda, escrito por uma leitora que sintetizou diversas críticas feitas especificamente a esses blogs. Também já publiquei dois posts sobre blogs em geral: um sobre comentários e outro sobre publicidade.

Considero que já manifestei a minha opinião sobre os principais temas relacionados a blogs, certo? Não está nos meus planos voltar a tocar nesse ponto tão cedo (explicação a seguir).

Desonestidade na blogosfera:

No meu post sobre publicidade em blogs de moda, aconteceram algumas coisas que me deixaram muito chateada. Muito mesmo.

5 (cinco!) blogueiras usaram aquele post para escrever comentários agressivos e eu diria até cruéis em relação a outras blogueiras. Para isso, escreveram comentários anônimos ou com nomes falsos, passando-se por pobres leitoras decepcionadas e inclusive por assessoras de imprensa. Concorrência desleal? Competitividade extrema? Jogo sujo? Vocês encontrarão a definição.

Eu geralmente leio os comentários que vão entrando via email, no meu celular mesmo. Quase nunca confiro o servidor, coisa que fiz desta vez. Me admira muito que esse tipo de atitude parta de pessoas que têm blogs e que, portanto, devem saber que as IPs dos comentaristas ficam registradas, né?

Nunca citei o nome de ninguém neste blog e não o farei desta vez. Mas saibam que esse tipo de atitude não vai colar por aqui nunca mais.

Blogueiras que se fizeram de vítimas em relação aos meus posts e que estão militando contra a minha existência: não defendam a classe com tanto empenho e ingenuidade. É a única coisa que tenho a lhes dizer.

Comentários:

Escrevi sobre as  mudanças nos comentários aqui. A principal delas: me reservo o direito de apagar comentários que contenham calúnias, injúrias ou difamações a terceiros. Comentários com termos de baixo calão serão igualmente apagados.

Eu fico muito feliz por ter encontrado tanta gente interessada em discutir os assuntos que eu proponho aqui. Gosto muito do nível dos comentários de forma geral e já conheci um monte de pessoas legais. Só tenho a agradecer.

No entanto, dá para ver que, enquanto algumas pessoas apenas querem manifestar as suas opiniões numa boa – concordando ou não comigo -, outras só querem avacalhar e invalidar a discussão inicial. Portanto, em respeito aos meus leitores, as baixarias geradas por essa meia dúzia de pessoas mal-intencionadas já estão sendo devidamente controladas.

Links em outros blogs:

Às leitoras que copiam links de posts meus e publicam em outros blogs, peço encarecidamente que deixem claro que vocês apenas estão repassando o link, ok? Algumas pessoas têm copiado trechos dos meus textos e inclusive de comentários que apareceram aqui para colar em caixas de comentários de outros blogs. Eu percebi que o nível aqui baixou muito quando vocês publicaram links para cá em determinados blogs, mas todo mundo é livre para divulgar o conteúdo que quiser, então não posso falar nada sobre isso. Apenas gostaria de pedir que vocês não estimulem confusões ou forcem rivalidades que  simplesmente não existem.

Eu estou aqui para dar as minhas opiniões e não para ficar de picuinhas com outras blogueiras, não tenho tempo e muito menos paciência para isso.

Twitter:

Gostaria de entender o que leva as pessoas a transformarem o twitter num mar de discórdias, de mesquinharia e de picuinhas. Qual a necessidade de ficar o dia inteiro no twitter mandando indiretas e falando mal dos outros? Não é mais fácil mandar um email expondo as razões do seu descontentamento com alguém? Alguém realmente acredita que dá para discutir algo em 140 caracteres? Estou fora.

Bolsa de moletom:

Esculachei a bolsa de moletom, assim como esculacharei qualquer produto do qual eu não goste ou que eu considere que está sendo vendido de forma capciosa. Não me importa que a bolsa em questão tenha sido divulgada por outros blogs. Eu posso esculachar um creme vendido pela Unilever cuja propaganda passa no horário nobre? Sim. Da mesma forma como posso esculachar a bolsa cuja propaganda aparece num blog qualquer. Tenho esse direito como consumidora. Simples assim. Não dramatizem tanto, por favor.

Tom ácido:

Sim, alguns posts meus terão um certo tom ácido pois às vezes escrevo sobre assuntos que nem sempre são tão agradáveis quanto as maravilhas que o último creme La Prairie pode proporcionar às nossas peles. Não escrevo sobre maquiagem, sobre herbalife ou sobre o lado cor-de-rosa-peace-and-love do mundo. Além do mais, o meu senso de humor é assim mesmo, tem um lado irônico e sarcástico. Nem todo mundo se identifica. Mundo real, né?

Fora isso, um recado: levar este blog muito a sério pode ser prejudicial à sua saúde. Levá-lo pouco a sério também. Você escolhe.

Recados pessoais:

Ninguém aqui me conhece, vocês podem me imaginar como bem quiserem: horrorosa, cheia de verrugas, desdentada ou fedorenta. Eu não poderia me importar menos e inclusive sei que é normal – e inclusive divertido – que isso aconteça quando imaginamos como será a pessoa que está por trás de uma tela. Só não esperem uma explicação da minha parte sobre o que você imaginou. Se eu quisesse ser julgada pela minha aparência, este blog não seria anônimo.

Blog anônimo:

Por razões pessoais e sobretudo profissionais, prefiro me manter no anonimato. Nenhum problema, afinal, estou aqui para falar de idéias.

– Os comentários deste post serão desativados, pois a intenção é apenas a de dar alguns recados e não a de gerar uma discussão. Quem quiser falar comigo sobre algum dos pontos tratados pode me mandar um email: dechanelnalaje@gmail.com –

Uma boa semana a todos!

consumir ou não consumir já não é a questão. como consumir: eis a questão.

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Decidi escrever algumas coisas que penso a respeito do consumo e do ato de consumir. Em primeiro lugar, eu gostaria de esclarecer que não sigo a linha do anticonsumismo, como algumas pessoas pensam. Sinto muito se vou decepcionar alguns corações comunistas, mas eu sou declaradamente fã do capitalismo, meus caros. Nutro, inclusive, uma forte simpatia pelo anarcocapitalismo. Isso se justifica pelo fato de que eu não só valorizo as liberdades individuais como creio com todas as minhas forças no poder do indíviduo. Não sou daquele tipo de pessoa maniqueísta que acha que tudo de ruim que acontece no mundo é culpa exclusiva das multinacionais, das grandes fortunas e dos Estados, e que o povo é apenas uma massa de controle e de manobra, sem voz e sem chances de mudar as regras do jogo.

Eu sou bem mais pragmática: se o jogo está ruim, todos os participantes estão jogando mal. O povo, inclusive. Então, não adianta ficar buscando culpado para tudo o tempo inteiro sem mudar de atitude e de mentalidade, sem agir, sem fazer acontecer, sem exigir que as regras do jogo mudem. No entanto, eu tenho consciência de que, sem educação, nenhum povo é capaz de evoluir a ponto de exigir alterações no sistema. Portanto, se de forma simplista eu tivesse de encontrar um culpado para todos os males da humanidade, eu diria sem pensar duas vezes: falta de educação. E por educação não quero dizer apenas colégios e universidades públicas com excelente infraestrutura, professores qualificados e bem-remunerados, bibliotecas maravilhosas, quadras de esporte e mil atividades extracurriculares. Claro que conquistar isso é um avanço para qualquer sociedade, mas eu não me refiro apenas à educação formal. Refiro-me sobretudo à sede de conhecimento, ao desenvolvimento do poder de questionar, à consciência de que ter as informações corretas confere a qualquer indivíduo um potencial revolucionário, uma poderosa ferramenta para lutar, uma arma capaz de vencer qualquer batalha. Inclusive a do consumo.

Eu vejo o consumo como um campo de batalha. Às vezes, o resultado pode ser o empate: numa relação win-win, a empresa vende/lucra e o consumidor faz uma boa compra. Muito raramente, o resultado é a derrota da empresa; imaginem uma etiqueta com o preço marcado errado, bem abaixo do preço real, por exemplo. A empresa, obrigada por lei a cobrar o preço da etiqueta, perde e o consumidor ganha. Entretanto, na maioria das vezes, quem perde é o consumidor. No nosso país, infelizmente, as coisas ocorrem dessa maneira. Sejamos honestos: com um nível educativo que sempre faz feio em qualquer ranking mundial, como os cidadãos brasileiros podem consumir (e votar) de forma relativamente consciente?

Consumir, assim como votar, é uma forma de execer poder e de exigir mudanças. Conhecer é uma forma de poder. Questionar é uma forma de poder. Se você consome usando os seus conhecimentos e a sua capacidade de questionar, ou seja, se você consome de forma consciente, você tem chances de ser um participante ativo do jogo. Melhor ainda, você tem chances de ganhar o jogo. Que produto é esse? Eu realmente preciso dele? Será que não existe um melhor? Ele tem uma boa relação qualidade-preço? Por esse preço, eu não deveria exigir uma coisa de melhor qualidade? E na hora de vender, eles me contam muitas milongas? Essa empresa é coerente com os seus princípios? Que discursos e valores eles fomentam na hora de promover o produto? Me identifico com aquela propaganda ou sinto nojo? Será que essa empresa financia algum político corrupto? Será que essa empresa trata bem os funcionários e tem uma política social-corporativa decente? E como será a política ambiental? Eu realmente posso comprar esse produto? Ele se encaixa nas minhas finanças ou seria melhor deixar para o mês que vem? Eu estou comprando isso porque quero ou simplesmente me fisgaram e atuei impulsivamente? Até que ponto os meus desejos ou inseguranças estão sendo explorados?

Esses foram alguns exemplos de perguntas que podem ser feitas na hora de consumir. Consumir um produto não é apenas levá-lo para casa. Também é financiar uma empresa, uma estrutura, uma forma de fabricar, uma forma de vender, uma forma de fazer publicidade, uma política de marketing. É muito fácil reclamar do sistema vestindo uma calça levi’s, uma camiseta do Che, calçando um all star surrado e segurando uma latinha de coca-cola. Uma postura tipicamente latino-americana, aliás. As multinacionais são as culpadas de tudo. Parece que ninguém lembra que, se todo mundo deixar de comprar determinado produto, este obviamente deixará de ser fabricado. O mais engraçado é que apenas aqueles que acreditam no poder do um e no poder do indivíduo se comportam como indivíduos. Os que acham que “a minha parte não vai fazer diferença alguma” ou que “não vou fazer isso porque ninguém faz” se comportam como massa, são massa e, portanto, merecem sofrer todas as consequências do comodismo e do conformismo. Nem adianta falar que o sistema calou a sua voz se quem a calou primeiro foi você mesmo.

Acho ótimo que as pessoas denunciem as péssimas práticas das empresas, a corrupção, os desrespeitos com os consumidores, enfim, qualquer tipo de conduta prejudicial  ao indivíduo ou à sociedade. Mas esse tipo de denúncia não deve servir apenas para alimentar o pensamento de que somos uns pobres coitados explorados pelo capitalismo selvagem e pela falta de humanidade das bolsas de valores. Cidadãos de um país terceiro-mundista que devem consumir o lixo que sobra dos outros ou que só somos dignos de comprar cópias mal-feitas, mal-acabadas e caras dos produtos internacionais, pagar os juros mais altos do mercado internacional e uns impostos de importação brutais que só protegem um empresariado interno altamente alienado que não se importa com nada a não ser com a própria fortuna. Ou que a globalização é isso aí mesmo e que veio para ferrar com tudo. Todas essas denúncias devem servir, em última instância, para que deixemos de comprar dessas empresas, para que passemos a informação adiante, para que escutem a nossa voz, para que ativemos os serviços de defesa do consumidor sempre que precisarmos, para que nos manifestemos, para que os cartórios deste país sejam inundados de processos porque – finalmente! – os cidadãos decidiram exigir os seus direitos.

Como eu já disse em mais de uma circunstância, em algumas questões que discutimos aqui: o problema principal muitas vezes não é o produto em si,  mas sim a forma como ele está sendo vendido. Questionar esses discursos é sempre válido. Tentar decifrar que valores e que ideologias estão por trás das propagandas e das informações trasmitidas pelos veículos de comunicação é um exercício saudável. Também é uma tarefa árdua, chata, dura, desanimadora. Quam atua assim muitas vezes é tratado como um otário que não tem nada melhor para fazer na vida, mas não devemos nos abater. Afinal, o que consideram algo melhor para fazer na vida? Consumir roupa-lixo, comida-lixo e entretenimento-lixo? Será que isso é melhor mesmo? Para algumas pessoas pode ser. Para mim, por exemplo, não. Afinal, eu conheço o valor do meu dinheiro, sou exigente e não me contento com qualquer porcaria.

Além do mais, atualmente não exercemos a cidadania apenas votando, respeitando o semáforo e os limites de velocidade, pagando os impostos ou separando o lixo para reciclar, mas também consumindo, analisando o que estão nos vendendo, de que forma e a que preço. Quando votamos ou consumimos, estamos transferindo o nosso poder aos políticos e às empresas. Inclusive, na minha opinião, o ato de consumir hoje em dia tem maior importância que o de votar, afinal, sem o apoio dos empresários, é praticamente impossível que um político se eleja, seja ele o Obama, o Lula ou o Hugo Chávez.  E, em plena época de eleições presidenciais, é sempre bom ficar de olho.

Update:
Caros leitores, acabo de fazer algumas pequenas porém importantes modificações na política de comentários do blog. Para conhecê-las, cliquem aqui. Obrigada!