Assim como um bom samba é uma forma de oração, um blog é uma forma de expressão.

Seis meses se passaram desde que criei o De Chanel na Laje. Naquele momento, eu não imaginava que encontraria tanta gente disposta a interagir comigo e a trocar idéias de uma forma tão frutífera. Para ser sincera, eu pensei que o De Chanel na Laje seria um espaço virtual facilmente descartável por mim. No entanto, as coisas fluíram de uma forma diferente. E hoje eu fiquei com vontade de escrever uma carta aberta aos amigos e inimigos conquistados. Antes eu só tinha um compromisso comigo mesma: expressar-me. Agora eu sinto que tenho um compromisso com todos aqueles que visitam esta humilde laje todos os dias.

Um obrigada especial aos inimigos
–  Pérolas aos porcos –

Queridos inimigos,

Vocês são poucos, na verdade. Porém, essenciais. Como é unânime que toda unanimidade é burra, eu fico muito satisfeita em saber que não agrado a todos. Agradeço sinceramente, e escrevo isso sem o menor traço de ironia ou de frivolidade, que vocês dediquem o seu tempo – o bem mais caro e precioso que há – à leitura e à crítica deste blog. Geniosa que sou, aprendi na mais tenra infância que os inimigos são como as pimentas: na medida certa, temperam e esquentam; em excesso, queimam e fazem dano. Adoro quando vocês me detestam mas conseguem transcender o ódio em favor da argumentação e do debate de idéias. Ponto para vocês!

Eu queria que vocês soubessem que, efetivamente, muitas coisas que eu penso estão registradas neste blog, mas que nem tudo que eu penso está aqui, por razões mais que óbvias. Tirar conclusões é um exercício mental interessante, mas procurem sempre fundamentá-las se quiserem evitar os micos desnecessários. E, ah, evitem as precipitações e os julgamentos vazios.

Alguns de vocês já disseram que eu sou uma revoltada social. Sim, acertaram. O que eu não entendo é como alguém pode não ser um revoltado social vivendo no país com a 3ª maior desigualdade social do mundo (PNUD/2010). Bom, se você estiver direta ou indiretamente na mamata – política, agropecuária, empresarial ou de qualquer outra ordem – eu até te entendo, o que não me impede de te culpar. E, se você não é um revoltado social e está fora dos círculos corruptos do país, sinto muito pelo seu conformismo. É duro dizer isso, mas você merece o que tem. Inclusive, a possibilidade de morrer por uma bala perdida.

Ler em certo blog que uma leitora deixou de ir a um encontrinho promovido por blogueiras porque “não tinha roupa” e iria se sentir deslocada me partiu o coração, assim como ele ficou partido durante todo o tempo em que dois familiares e dois amigos estiveram em cativeiro, sequestrados. Ah, também me partiu o coração – e a dignidade – levar um cuspe no rosto, dado com prazer por um pivete cheirador de cola que via nos meus olhos e nos meus tênis as cores da sua repressão social. É, acho que o meu coração também ficou partido – aliás, ele quase deixou de funcionar – quando tive uma arma encostada na minha cabeça. Passa a bolsa ou estouro a tua cabeça, patricinha de merda!

Pois, sim, inimigos. Eu sou uma revoltada social. E muito provavelmente uma patricinha de merda aos olhos de muitos dos meus conterrâneos. É triste, mas é assim.

Vocês também dizem que eu sou intelectual. Acertaram outra vez. Sou mais intelectual que emocional, sem dúvidas. Assim como vocês têm nojo de quem exibe os seus livros e as suas resenhas na Internet, muitas pessoas sentem nojo de quem exibe as suas maquiagens e os seus tutoriais na Internet. Superem isso. Nem todo mundo tem os mesmos interesses. Algumas pessoas cultivam apenas o lado mental, outras apenas o físico, outras só cultivam a barriga de cerveja enquanto outras não cultivam nada. Algumas, como eu, dedicam 5 minutos do seu dia à preparação de uma maquiagem básica, porque a leve sombra nos seus olhos não as impede de ler. Sou bem-resolvida nesse sentido e não vou pedir desculpas por cultivar mais o cérebro que a aparência, assim como não vou pedir desculpas por comprar revistas de moda.

Algumas pessoas também chegaram à cabalística conclusão de que eu sou contra o consumo, de que eu sou contra roupas de marca e blábláblá. Para começar, sou declaradamente uma grande admiradora do capitalismo e faria uma fogueira globalizada com todas as camisetas do Che. Para terminar, eu não sou nem nunca serei contra os objetos em si. Apenas questiono determinados usos que as pessoas fazem deles e/ou certos valores que as pessoas atribuem a eles. Um exemplo? Acho os diamantes lindos, encantadores, sublimes, uma maravilha da natureza, mas execro com todas as minhas forças o seu comércio e sinto nojinho das pessoas que alimentam essa indústria (não se desculpe pelo seu anel, cada um na sua). Sou a favor do consumo, sim. Quanto mais ético e consciente ele for, melhor. E, sim, eu gosto de fazer piadas sobre o mundinho do gramour paraguaio e do deslumbramento que ele causa em muitos desmiolados. Tirem as suas conclusões.

Para finalizar, vocês dizem que eu sou a favor da democratização da moda mas fico irritada quando alguma coisa vira modinha. Sim, eu sou a favor da democratização da moda, e lamento que no nosso país a moda seja privilégio de poucos e a população ande tão francamente mal-vestida (o que é irrisório se lembrarmos que boa parte da população esteja, também, mal-alimentada, mal-alojada e mal-educada). Agora, não pensem que eu fico irritada com a massificação de certas modinhas, porque eu, ao contrário de alguns de vocês, sei que existe um processo cíclico por trás da criação das tendências – e não me refiro apenas às tendências do mundinho fashion – e ele é muito simples: 99% das modinhas nascem, crescem, se massificam, enjoam, morrem. O ponto do nascimento e o do enjôo talvez sejam os que mais me interessam, mas saibam que a teoria não foi inventada por mim. Se quiserem pedir satisfações a alguém, a Rive Gauche talvez seja o lugar mais indicado. Paris é o lugar, car@s bloguetes, e não uma laje virtual.

Obrigada pela atenção dispensada, sem mais.

O maior agradecimento do mundo aos meus amigos
–  Injeção de ânimo à minha vida virtual –

Queridos amigos,

Em primeiro lugar, gostaria de dizer que não considero amigas apenas as pessoas que concordam comigo, ou as que se manifestam de uma maneira ou de outra. Considero amigas todas as pessoas que me visitam e que não se incomodam com a existência deste blog. Pessoas que lêem o que escrevo e que respeitam as minhas opiniões, concordando ou não com elas.  Algo louvável e grandioso, especialmente nesta época de fascismos internéticos e de concepções antidemocráticas.

Para ser sincera, as estatísticas não me importam, mas eu reconheço que fico muito feliz ao ver que tanta gente passa por aqui. Se eu quisesse escrever por escrever ou se a minha intenção fosse encontrar um eco no nada, eu guardaria os meus textos num arquivo .doc com senha. A Internet é tão vasta! Poder cultivar um espaço de troca de idéias e de debates civilizados não tem preço. E esse espaço só existe graças a vocês.

As visitas, os comentários, os emails, os tweets, os links para cá, as recomendações para os amigos: agradeço, de coração, por tudo isso. Não me importo se serei taxada de piegas, mas esse feedback anima, e muito!

O que mais me impressiona é a qualidade dos comentários de vocês. Na maioria das vezes, surgem algumas discussões tão interessantes na caixa de comentários, que eu sinto até uma vontade de reescrever o post que deu o pontapé no debate. Confesso que muitas vezes senti vontade de publicar certos comentários incríveis e eloquentes. Inclusive, pensei em montar um post periódico com trechos de comentários espetaculares. Não é à toa que muitos leitores escrevem que amam as caixas de comentários deste blog. Eu também amo.

Também gostaria de dar um agradecimento especial a todas as pessoas que me mandam relatos para a parte de depoimentos do blog e às que simplesmente desafam comigo. Saibam que eu valorizo muito a confiança de vocês em mim. E às pessoas que gentilmente me mandaram sugestões de temas, eu gostaria de dizer que tenho a intenção de escrever sobre todos eles. Aproveito para pedir desculpas pela demora…

Outra coisa que me deixa excepcionalmente feliz é constatar que este blog virou um canal no que muitas pessoas encontraram/encontram outras com quem se identificam. Muitas pessoas se conheceram nas caixas de comentários e hoje são amigas. Encontrar pessoas com os mesmos interesses e questionamentos, encontrar pessoas interessadas em trocar idéias ou simplesmente encontrar pessoas dispostas a ouvir os nossos desabafos são coisas que não têm preço.

Não tenho muito mais que acrescentar. Nós, amigos, nos entendemos com poucas palavras.

Espero que eu tenha sido capaz de transmitir o quanto este blog foi/é um injeção de ânimo na minha vida virtual.

Um grande beijo,

De Chanel na Laje.

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