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O depoimento que recebi dessa leitora tem uma tônica bem diferente dos depoimentos publicados até agora. Ela fala do preconceito que reina no mundo científico-acadêmico em relação às pessoas que gostam de cuidar da própria aparência. Esse é um tema delicado, e eu já tinha pensado em escrever sobre algo relacionado aqui no blog: até que ponto estamos – ou deveríamos ou não estar – dispostos a enfrentar convenções de qualquer tipo (e existem mil) na hora de nos vestirmos? Seguir ou não essas convenções parece um assunto simples, afinal, podemos defender a priori que cada um use o que quiser e viva a liberdade e o Século XXI e o afrouxamento das amarras do tradicionalismo, mas na prática as coisas são mais complexas do que aparentam.

Direcionando essa reflexão para o mundo do trabalho, existem profissões mais abertas do que outras em relação à aparência. Mesmo assim, eu tenho a impressão de que toda profissão tem um certo perfil determinado. Digamos que existe uma espécie de protocolo informal em relação à maneira como cada pessoa deve vestir-se de acordo com a sua profissão. Refiro-me ao protocolo informal, pois, do formal, do obrigatório, não se tem muito como fugir (penso nos cargos que exigem uso de uniforme).

Então, o ponto é: seguimos ou não esses protocolos informais? Cultivar a aparência profissional que se espera de cada um de nós é uma forma de autopreservação, um caminho seguro, um mero cumprimento de papéis. E as pessoas que não se identificam com essas imagens pré-estabelecidas, ou que simplesmente não querem corresponder às expectativas e seguir os padrões? Estão certas, erradas? Há um preço a se pagar por essa escolha?

De modo geral, parece  que, sim, há um preço. Claro que há exceções e inclusive variações de acordo com a cultura. No mundo acadêmico, por exemplo, existe um preconceito latente em relação às pessoas que se ocupam de coisas classificadas de forma praticamente unânime como fúteis: beleza, roupas, aparência. Quando li este depoimento, me lembrei de uma professora excelente que tive. Para mim, era uma professora exemplar: culta, didática, eloquente, competente, aberta, solícita. Não demorei a descobrir que ela, apesar de todas as suas qualidades inquestionáveis e de uma trajetória acadêmica brilhante, era alvo de várias piadinhas entre professores e alunos. Essa professora era ridicularizada nas rodinhas imbecis e tinha vários apelidinhos nada simpáticos apenas porque tinha uma “aparência cultivada” (sempre estava bronzeada, maquiada, arrumadíssima e de salto).

No mundo acadêmico, se valoriza um certo desleixamento limpinho, interpretado como um sinal de que a vida intelectual daquela pessoal é tão fértil, que ela simplesmente não tem tempo para “essas coisas fúteis”. Claro que, no fundo, o mundo acadêmico também é machista (e esse machismo também é propagado por algumas mulheres que conseguiram o seu lugar ao sol). Uma amiga minha nunca se sentiu respeitada numa universidade onde conseguiu uma vaga como “contratada” (por méritos próprios), pois diziam que “patricinha, novinha e bonita daquele jeito era óbvio que havia um padrinho por trás”. O resultado? Ela foi excluída abertamente por outros professores (maioria mulheres), chegou a receber cantadas de alguns alunos e obviamente acabou ficando pouco tempo no trabalho. Tudo bem, isso tudo deu forças para que ela conseguisse um cargo público numa instituição muito mais interessante, na que ela se veste como bem quer e entende e não é desprezada por isso. E, ah, isso não ocorreu no Brasil. Ou seja, em outros países também existe esse conservadorismo no meio acadêmico .

Não entendo e chego a me irritar profundamente. A universidade deveria ser um reflexo da diversidade que existe na sociedade, um espaço heterogêneo e aberto onde cada um poderia ser como é. Afinal, estamos falando de um mundo no que o conhecimento e as idéias deveriam reinar, e tudo isso independe da forma como cada um se veste ou se cuida, dos seus crocs ou das suas ankle boots. Por essas e outras (muitas outras), a minha decepção com o mundo acadêmico é tão grande. A universidade não deveria ser uma ilha, um mundo paralelo cercado de muros e de regrinhas limitadoras.

Ao depoimento:

Primeiro, quero te parabenizar pelo blog, adoro ele, quando descobri li tudo no mesmo dia e fiquei feliz que voltou a ativa.
Enfim, vou fazer um desabafo. Se for publicar no blog por favor não coloque meu nome, me apelide do que qusier =P!
É um desabafo sobre os preconceitos que as pessoas tem com relação a aparencia, tanto das que acham essencial ter uma LV (que particularmente não gosto), tanto das que acham que usar maquiagem é coisa de gente fútil e a toa.
Durante a adolescencia tive a fase de só usar preto, mas passou, mas continuo amando tachas desde aquela época (aliás, adorei a moda das tachas pela facilidade de encontrar roupas de qualidade com tachas e coturnos sem ser em loja militar, hahahaha). Depois na faculdade, de biologia, no inicio era só camiseta, jeans e sapatilha, só! Não usava make, meu cabelo era totalmente descuidado, igual 95% dos meus colegas de faculdade. Até que descobri o rímel, depois blush, foi indo e decidi me cuidar mais (sou branquela, loira do olho claro, apagada, sem cilio nem sombrancelha, pense na diferente que só o rímel já faz!). Via as moças na TV com a make linda e decidi aprender, assim como a usar salto e pensar na roupa a usar, não só vestir a primeira que visse. Isso foi no último ano da faculdade. Aí que vi como as pessoas são preconceituosas.

Quando entrei no mestrado gastei minha primeira bolsa com roupas, coisa que nunca tinha feito. Passei a me vestir melhor, e nisso alguns blogs de moda ajudaram e muito, assim como os blogs de maquiagem. Confesso que antes lia uns que hoje peguei nojo, com suas tendencinhas, coisas que tem que ter e esnobices. Mas quem está perdida, como foi meu caso, esses blogs ajudam, te dão uma norteada,  muitos dos que sigo hoje encontrei nesses, mas tem que saber filtrar. Mesmo neles tem posts legais. Passei a ir na dermatologista, fazer exercicio, hidratação no cabelo, cuidar mais de mim sabe. E isso foi ótimo, antes eu me achava feia e acho que por isso agia como se moda fosse futilidade. Minha mãe adorou minha mudança, hahaha, meu namorado também gostou e super apoiou eu me cuidar mais. Mas aí vi que pessoas mais estudadas que deveriam ser mais abertas muitas vezes são tão preonceituosas, principalmente no meio que vivo, que é o cientifico, academico.

Nesse meio a maioria não se cuida. Conheço gente que vai trabalhar como se fosse fazer a faxina em casa no sábado a tarde, são famosos pelas crocs e roupas de gosto (muito) duvidoso, e muitos desses (claro, não todos) se acham melhores que todas as pessoas fúteis que gastam seu tempo cuidado da pele! Rola um super preconceito com quem se veste bem. Onde estudo mesmo, por parte dos outros alunos, é brincadeira todo dia, acham o máximo falar em alto e bom som que não tem tempo para futilidades como pintar as unhas ou se maquiar de manhã. Felizmente isso não acontece com os meus professores, mas já ouvi cada história. Pelo que me contaram tem muito essa bobagem nos EUA, onde uma pesquisadora com decote não tem o mesmo respeito que uma vestida que nem homem.
Isso me deixa triste, de verdade. Não por que é comigo. Mas ver o preconceito que rola por ambos os lados, sendo que cada um se acha melhor do que o outro. Ninguém é melhor do que ninguém. Ninguém é melhor por ter a “it bolsa” ou por não ter nenhum bolsa! Parece até que é impossível alguém ler Darwin e usar batom da MAC! Vaidade não tem correlação inversa com inteligencia!

Enfim, ficou enorme. É um desabafo.
Será que mais alguém passa pela mesma situação?
Abraços e parabéns pelo blog!

Obrigada à leitora que enviou o depoimento! ;-)

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