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Decidi escrever algumas coisas que penso a respeito do consumo e do ato de consumir. Em primeiro lugar, eu gostaria de esclarecer que não sigo a linha do anticonsumismo, como algumas pessoas pensam. Sinto muito se vou decepcionar alguns corações comunistas, mas eu sou declaradamente fã do capitalismo, meus caros. Nutro, inclusive, uma forte simpatia pelo anarcocapitalismo. Isso se justifica pelo fato de que eu não só valorizo as liberdades individuais como creio com todas as minhas forças no poder do indíviduo. Não sou daquele tipo de pessoa maniqueísta que acha que tudo de ruim que acontece no mundo é culpa exclusiva das multinacionais, das grandes fortunas e dos Estados, e que o povo é apenas uma massa de controle e de manobra, sem voz e sem chances de mudar as regras do jogo.

Eu sou bem mais pragmática: se o jogo está ruim, todos os participantes estão jogando mal. O povo, inclusive. Então, não adianta ficar buscando culpado para tudo o tempo inteiro sem mudar de atitude e de mentalidade, sem agir, sem fazer acontecer, sem exigir que as regras do jogo mudem. No entanto, eu tenho consciência de que, sem educação, nenhum povo é capaz de evoluir a ponto de exigir alterações no sistema. Portanto, se de forma simplista eu tivesse de encontrar um culpado para todos os males da humanidade, eu diria sem pensar duas vezes: falta de educação. E por educação não quero dizer apenas colégios e universidades públicas com excelente infraestrutura, professores qualificados e bem-remunerados, bibliotecas maravilhosas, quadras de esporte e mil atividades extracurriculares. Claro que conquistar isso é um avanço para qualquer sociedade, mas eu não me refiro apenas à educação formal. Refiro-me sobretudo à sede de conhecimento, ao desenvolvimento do poder de questionar, à consciência de que ter as informações corretas confere a qualquer indivíduo um potencial revolucionário, uma poderosa ferramenta para lutar, uma arma capaz de vencer qualquer batalha. Inclusive a do consumo.

Eu vejo o consumo como um campo de batalha. Às vezes, o resultado pode ser o empate: numa relação win-win, a empresa vende/lucra e o consumidor faz uma boa compra. Muito raramente, o resultado é a derrota da empresa; imaginem uma etiqueta com o preço marcado errado, bem abaixo do preço real, por exemplo. A empresa, obrigada por lei a cobrar o preço da etiqueta, perde e o consumidor ganha. Entretanto, na maioria das vezes, quem perde é o consumidor. No nosso país, infelizmente, as coisas ocorrem dessa maneira. Sejamos honestos: com um nível educativo que sempre faz feio em qualquer ranking mundial, como os cidadãos brasileiros podem consumir (e votar) de forma relativamente consciente?

Consumir, assim como votar, é uma forma de execer poder e de exigir mudanças. Conhecer é uma forma de poder. Questionar é uma forma de poder. Se você consome usando os seus conhecimentos e a sua capacidade de questionar, ou seja, se você consome de forma consciente, você tem chances de ser um participante ativo do jogo. Melhor ainda, você tem chances de ganhar o jogo. Que produto é esse? Eu realmente preciso dele? Será que não existe um melhor? Ele tem uma boa relação qualidade-preço? Por esse preço, eu não deveria exigir uma coisa de melhor qualidade? E na hora de vender, eles me contam muitas milongas? Essa empresa é coerente com os seus princípios? Que discursos e valores eles fomentam na hora de promover o produto? Me identifico com aquela propaganda ou sinto nojo? Será que essa empresa financia algum político corrupto? Será que essa empresa trata bem os funcionários e tem uma política social-corporativa decente? E como será a política ambiental? Eu realmente posso comprar esse produto? Ele se encaixa nas minhas finanças ou seria melhor deixar para o mês que vem? Eu estou comprando isso porque quero ou simplesmente me fisgaram e atuei impulsivamente? Até que ponto os meus desejos ou inseguranças estão sendo explorados?

Esses foram alguns exemplos de perguntas que podem ser feitas na hora de consumir. Consumir um produto não é apenas levá-lo para casa. Também é financiar uma empresa, uma estrutura, uma forma de fabricar, uma forma de vender, uma forma de fazer publicidade, uma política de marketing. É muito fácil reclamar do sistema vestindo uma calça levi’s, uma camiseta do Che, calçando um all star surrado e segurando uma latinha de coca-cola. Uma postura tipicamente latino-americana, aliás. As multinacionais são as culpadas de tudo. Parece que ninguém lembra que, se todo mundo deixar de comprar determinado produto, este obviamente deixará de ser fabricado. O mais engraçado é que apenas aqueles que acreditam no poder do um e no poder do indivíduo se comportam como indivíduos. Os que acham que “a minha parte não vai fazer diferença alguma” ou que “não vou fazer isso porque ninguém faz” se comportam como massa, são massa e, portanto, merecem sofrer todas as consequências do comodismo e do conformismo. Nem adianta falar que o sistema calou a sua voz se quem a calou primeiro foi você mesmo.

Acho ótimo que as pessoas denunciem as péssimas práticas das empresas, a corrupção, os desrespeitos com os consumidores, enfim, qualquer tipo de conduta prejudicial  ao indivíduo ou à sociedade. Mas esse tipo de denúncia não deve servir apenas para alimentar o pensamento de que somos uns pobres coitados explorados pelo capitalismo selvagem e pela falta de humanidade das bolsas de valores. Cidadãos de um país terceiro-mundista que devem consumir o lixo que sobra dos outros ou que só somos dignos de comprar cópias mal-feitas, mal-acabadas e caras dos produtos internacionais, pagar os juros mais altos do mercado internacional e uns impostos de importação brutais que só protegem um empresariado interno altamente alienado que não se importa com nada a não ser com a própria fortuna. Ou que a globalização é isso aí mesmo e que veio para ferrar com tudo. Todas essas denúncias devem servir, em última instância, para que deixemos de comprar dessas empresas, para que passemos a informação adiante, para que escutem a nossa voz, para que ativemos os serviços de defesa do consumidor sempre que precisarmos, para que nos manifestemos, para que os cartórios deste país sejam inundados de processos porque – finalmente! – os cidadãos decidiram exigir os seus direitos.

Como eu já disse em mais de uma circunstância, em algumas questões que discutimos aqui: o problema principal muitas vezes não é o produto em si,  mas sim a forma como ele está sendo vendido. Questionar esses discursos é sempre válido. Tentar decifrar que valores e que ideologias estão por trás das propagandas e das informações trasmitidas pelos veículos de comunicação é um exercício saudável. Também é uma tarefa árdua, chata, dura, desanimadora. Quam atua assim muitas vezes é tratado como um otário que não tem nada melhor para fazer na vida, mas não devemos nos abater. Afinal, o que consideram algo melhor para fazer na vida? Consumir roupa-lixo, comida-lixo e entretenimento-lixo? Será que isso é melhor mesmo? Para algumas pessoas pode ser. Para mim, por exemplo, não. Afinal, eu conheço o valor do meu dinheiro, sou exigente e não me contento com qualquer porcaria.

Além do mais, atualmente não exercemos a cidadania apenas votando, respeitando o semáforo e os limites de velocidade, pagando os impostos ou separando o lixo para reciclar, mas também consumindo, analisando o que estão nos vendendo, de que forma e a que preço. Quando votamos ou consumimos, estamos transferindo o nosso poder aos políticos e às empresas. Inclusive, na minha opinião, o ato de consumir hoje em dia tem maior importância que o de votar, afinal, sem o apoio dos empresários, é praticamente impossível que um político se eleja, seja ele o Obama, o Lula ou o Hugo Chávez.  E, em plena época de eleições presidenciais, é sempre bom ficar de olho.

Update:
Caros leitores, acabo de fazer algumas pequenas porém importantes modificações na política de comentários do blog. Para conhecê-las, cliquem aqui. Obrigada!

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