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– Olá, gostaria de saber se a sua opinião está à venda.-
– Vou lhe mostrar a minha tabela de preços, senhor. –

Vários leitores me sugeriram que eu escrevesse um post sobre a publicidade nos blogs. Por ser uma realidade nova tanto para blogueiros como para empresas e agências, muitas pessoas ainda não sabem como lidar muito bem com ela, o que não deixa de ser compreensível. Só que essa realidade também é nova para os leitores dos blogs, e esse é um ponto que muitas vezes fica de lado nessa discussão toda. Então, eu gostaria de deixar claro que vou opinar sobre esse assunto como leitora de blogs. Para começar, anuncio de uma vez por todas que eu não vejo o menor problema em que certas pessoas queiram ganhar dinheiro com os seus blogs, desde que se mantenham dentro dos limites da ética, da transparência e sobretudo do respeito com os seus leitores. Infelizmente, às vezes temos a impressão de que algumas pessoas que querem ganhar dinheiro com os seus blogs apenas têm compromisso com a própria conta bancária e com as empresas parceiras, e nunca com os leitores. Por isso, eu proponho que se deixe de pensar na publicidade virtual como uma relação entre empresas e donos de blogs, e sim como uma relação entre empresas, blogueiros e leitores, sendo que – cuidado! – os leitores, desta vez, têm voz. Apesar de que alguns queiram calar essa voz, ela continuará existindo e em algum momento encontrará o seu meio de expressão.

Para facilitar um pouco a discussão sobre a publicidade na blogosfera, vou diferenciar quatro tipos principais de blogs:

1) Blogs que nasceram como uma forma de negócio, ou de promoção direta ou indireta do trabalho dos seus autores:

São os “blogs profissionais”, “blogs corporativos” ou “blogs mamãe-quero-ser-um-portal”. Podem ser blogs de maquiadores, cabeleireiros ou fotógrafos, por exemplo, que queiram exibir os seus trabalhos, apresentar o seu portfólio ou inclusive relatar o seu dia-a-dia mostrando o outro lado do processo de criação para o público, etc. Também podem ser blogs de exposição e/ou venda de produtos fabricados por certo profissional ou empresa. Aqui também se incluem os blogs/portais com alta frequência de atualização e de geração de conteúdos mais ou menos jornalísticos. O objetivo desse tipo de meio é captar parcerias com marcas, obter patrocínios, alugar espaço publicitário (banners), e tudo isso fica claro para os leitores.

2) Blogs que não têm intenção de ganhar dinheiro:

Nessa categoria se enquadram os “blogs pessoais” e os “blogs independentes”. Blogs pessoais são aqueles no que o autor pode relatar coisas do seu dia-a-dia, suas compras, seus desejos, opiniões, falar dos seus interesses, de problemas ou de qualquer outra coisa. Blogs independentes são aqueles meramente opinativos, temáticos ou não, onde o autor mantém um espaço para se expressar e trocar idéias. Nestes casos, os autores não têm nenhum compromisso oficial com a imparcialidade. Dessa forma, as informações geradas por eles se diferenciam das que são geradas pelos meios tradicionais, e é justamente isso o que atrai a atenção de tanta gente. Ou seja, as pessoas que lêem esse tipo de blog querem conhecer, entre outras coisas, a opinião, a personalidade, a visão, as vivências do blogueiro.

3) Blogs que não nasceram com o objetivo de ganhar dinheiro, mas que mudaram de rumo e querem aproveitar as oportunidades que surgiram:

Esses são os casos mais complexos. Muitas pessoas conquistaram certa fama e popularidade na Internet com os seus blogs – inicialmente pessoais e independentes – e, num determinado momento, tiveram a oportunidade de ganhar dinheiro com isso. Na minha opinião, é aqui que reside o problema. Como transformar o seu blog num projeto rentável sem que ele perca a identidade? Como fazer isso sem decepcionar ou inclusive perder os seus leitores? É possível manter a originalidade, a espontaneidade e a independência quando há uma ou mais empresas patrocinando o seu blog? Que empresas são essas? Elas têm a ver com o blog? A atuação social e corporativa delas se encaixa com as idéias defendidas no blog? Como vai ser essa parceria? O blogueiro que não puder formular respostas claras e coerentes a essas perguntas terá grandes chances de fracassar e de ficar pelo caminho.

4) Blogs criados para alcançar os benefícios dos blogs do tipo 3, sem terem percorrido o mesmo caminho inicial:

Blogs que emulam as características dos blogs populares com a intenção de obterem os mesmos benefícios financeiros. Reproduzir a fórmula de sucesso de outros blogs não é garantia certa de êxito, mas às vezes funciona. Isso significa que nem todos os blogs que hoje conseguem patrocínios e jabás variados passaram por essa transformação de blog independente a blog patrocinado, mas esse não é o x da questão. O problema é: muitas pessoas estão reproduzindo modelos que teoricamente funcionam, mas que, no fundo, estão cheios de defeitos.

Traçado um panorama geral dos tipos de blogs, vejamos os tipos de jabás que podem rolar nos blogs do tipo 3 e 4:

Banners: alugar um espaço fixo do seu blog é uma forma interessante de ganhar dinheiro com a atividade blogueira e provavelmente a menos controvertida de todas elas. Uma coisa que eu, particularmente, acho uma chateação são os posts elogiando ou promovendo as empresas que pagam pelos banners do blog em questão. Me parece politicagem gratuita, puxação de saco. No entanto, se os posts em questão também foram patrocinados, aí se trata de outra história…

Posts pagos: isso, sim, é que é um ponto polêmico! Muitas empresas pagam boas quantias para que os blogueiros falem bem dos seus produtos. Não, elas não mandaram produtinhos para que o blogueiro teste. Ela quer que o blogueiro escreva um post falando maravilhas de determinado produto. Nesse caso, cabe ao blogueiro avaliar se ele está disposto a promover esse produto, exatamente da mesma forma como os atores decidem se vão querer associar a sua imagem à de determinado produto. Até aqui tudo bem: as empresas querem anunciar, os blogueiros querem ganhar dinheiro. E nós, leitores, queremos o quê? Informações, obviamente. Mas não informações passadas de forma capciosa. Transparência e objetividade são os elementos que vão permitir que o leitor tire as suas próprias conclusões sobre as informações oferecidas pelo blog. Se você fizer um post falando das maravilhas de determinado produto e você tiver qualquer tipo de relação comercial com a empresa fabricante ou promotora desse produto, avise, comunique, informe que essa relação existe. Um aviso de que a empresa X é patrocinadora do blog (ou parceira do blog, para os que gostam de eufemismos) no final do post é o mínimo que você pode – e deve – fazer pelos seus leitores. Questão de respeito. E eu não vejo a hora de que seja, também, uma obrigação legal. Se a relação for pessoal ou familiar, isto é, se você estiver falando bem da loja da sua amiga ou da sua mãe, faça o mesmo: avise aos seus leitores.

Teste de produtos: outro ponto polêmico. Existe imparcialidade nesse caso? Todos os blogueiros são efetivamente sinceros na avaliação de um produto que receberam? Ou será que ficam com medo de não receberem mais produtos ou de perderem um possível patrocínio futuro caso critiquem algo? Em relação a isso, o blogueiro deverá avaliar se ele está disposto a vender a sua opinião – e esse problema será única e exclusivamente dele. As consequências podem ser drásticas. A pior delas? Perda de credibilidade por parte dos leitores, afinal, algumas pessoas percebem quando um blogueiro não é sincero nas suas críticas (infelizmente, nem sempre dá para perceber). Particularmente, acho execrável quando alguém mente nesse sentido. Mas cada um tem o seu preço e o de algumas pessoas é bem baixinho mesmo, isso não é novidade. Independentemente dessas questões, a regra aqui é a mesma: avise, comunique, informe que você ganhou o produto para testar.

Sorteios: no plano teórico, a idéia pode até parecer inofensiva. A marca promove o produto, o blogueiro promove o blog e algum leitor leva um presentinho. No entanto, o que vemos é uma verdadeira avalanche de promoções, uma coisa que chega a sufocar os leitores. Você tem de ser seguidor do blog, do twitter, tem de dar RT e tem de aguentar mil avisinhos de quando a promo acaba ou deixa de acabar. Além do mais, às vezes temos a impressão de que o pessoal sorteia qualquer quinquilharia que surge pela frente. Essa febre de sorteios também foi responsável pelo surgimento dos caça-bugigangas, aquelas pessoas que pululam de blog em blog caçando os sorteios, e dos caça-leitores, pessoas que acham que só porque estão sorteando algo podem assediar todo mundo em busca de novos seguidores.

Convites para eventos: convidar blogueiros para eventos é outra estratégia que as marcas vêm seguindo nos últimos tempos. Às vezes, um convite, um presentinho e um cupcake é tudo que uma marca tem que investir para conseguir um post simpático num determinado blog. Publicidade efetiva e praticamente gratuita. A minha opinião não difere do relatado nos outros tópicos. O blogueiro deve deixar claro que ele recebeu um convite para participar daquele evento. Assim, os leitores poderão avaliar o nível do possível deslumbramento causado pela festinha.

Panelinhas de blogueiros: é a formalização, na vida virtual, do famoso QI da vida real. Uma panelinha se forma quando algumas blogueiras se unem, se ajudam entre elas, linkam os seus respectivos blogs, fazem várias ações conjuntas, publicam fotos juntas e declaram o seu amor publicamente. Elas atuam como se fossem um grupo de empresas unidas por um projeto comum. Elas sabem que precisam de apoios; afinal, sobreviver à selva virtual não é fácil. Essas panelinhas geralmente são responsáveis pelos famosos encontrinhos patrocinados, outra forma bem conhecida de fazer jabá em blogs.

Tags: para mim, usar determinada tag quando houver qualquer tipo de relação comercial por trás do post é algo insuficiente. Convenhamos que nem todo mundo presta atenção a essas tags e que muita gente nem sequer conhece o significado particular que o blogueiro atribui a elas. A transparência, nesse caso, é altamente questionável.

Sinto muito se a minha opinião sobre a publicidade nos blogs peca por ser excessivamente pragmática. Blogs já não são mais o meio independente e alternativo de antes. Eles agora também são ferramentas para ganhar dinheiro e eu acho que esse é um caminho sem volta, infelizmente. Então, lidemos com essa realidade da melhor forma possível. Resumidamente, a regra de ouro é: não subestime os seus leitores. Seja transparente, avise quando existir qualquer relação comercial, seja franco e direto. Os seus leitores poderão tirar as conclusões necessárias por eles mesmos. Se você disser que esse esmalte é maravilhoso e avisar que a empresa que fabrica é patrocinadora do blog, é óbvio que muitas pessoas poderão desconfiar da sua imparcialidade. Ossos do ofício, ora! Se não souber lidar com isso, busque outra profissão ou outra forma de complementar a renda familiar. Mentira tem perna curta e, por muito que você apague os comentários daqueles que descobriram que você é uma farsante, você seguirá sendo uma farsante. Mas isso aí é problema seu, e não meu, né? Boa sorte, mesmo assim.

Uma mensagem que considero importante: leitores, vocês estão certíssimos quando questionam certas posturas e atitudes dos blogueiros que ganham dinheiro com os seus respectivos blogs. Esse papo de “clica no x”, nesse caso, é conversa para boi dormir. Não se calem, denunciem, reclamem, critiquem, alertem os outros leitores mais ingênuos ou desligados. De preferência com educação e de forma objetiva e direta, sem chorumelas. Se não der certo, aí sim, procurem – ou criem – outros meios de informação e deixem que as ovelhinhas sigam engordando a poupança do pastor. Lembrem-se: sem leitores, um blog deixa de ser rentável. Não se deixem manipular. Não deixem que a Internet vire um canal de comunicação e de alienação como outro qualquer. Um programa de tv não tem caixa de comentários, mas um blog sim. Aproveite!

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