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… e toda aquela aurinha de meninas fofas e obedientemente rebeldinhas. Porque o mundo é cor-de-rosa-chiclete-tutti-frutti e uma coisa, assim, totalmente girly, sabe? Meninas poderosas, nós não somos apenas uma carinha bonita e maquiada (e um bumbum siliconado); nós também lemos Rochefoucauld, Tocqueville e Clarice Lispector e – yes! – nós assamos cupcakes em moldes de corações flechados. Baba, baby, baba. E não esqueça a azeitona do meu martini.

Existe uma coisa sobre a De Chanelzinha aqui que provavelmente vocês nem imaginam: eu sou fã de carteirinha dos blogs de culinária, nacionais e internacionais. Quem acompanha a blogosfera foodie sabe que a entidade das tendências não reina absoluta apenas na blogosfera fashionista. Assim como os blogs de moda popularizam um Snob, um Illusion d’or ou inclusive uma jegging da vida, os blogs de culinária um belo dia começam a popularizar a fava de baunilha de Madagascar, o ágar-ágar, o matcha ou as sementes de papoula. Sempre existe a febre culinária do momento. Primeiro, vimos a popularização do petit gateau. Depois, os muffins tiveram os seus dias de glória. Logo, foi a vez das madeleines. O povo se empolgava tanto, que citava até Proust, e – aleluia! – ninguém criticava esse fato. Em seguida veio a ondinha dos macarons, e agora – ou melhor, há uns dois ou três anos – existe todo esse frisson* dos bolinhos de xícara, os arquifamosos cupcakes.

Então, eu pensava cá com os meus botões: os cupcakes acabaram sendo um elo de ligação entre esses dois mundos. Graças à pentelha** da Carrie Bradshaw e às suas amiguitas do coração, assíduas frequentadoras da Magnolia Bakery – que, dizem as más línguas, fazem os piores e mais secos bolinhos de toda NY -, os cupcakes também acabaram entrando, pela porta da frente, nesse mundinho de flashes e de gramour grifado. Ontem foi a vez do café com umas gotas de calda de chocolate vagabundo e muito gelo, ops, do mocca frappuccino superduper do Starbucks. No dia seguinte, foi a vez dos macarons. Aliás, que levante a mão quem não viu ao menos três editoriais de moda com macarons de pomelo, ou talvez lavanda,  banhados em corantes fluorescentes (mas isso a gente abafa), nas mãos de uma menina sardenta fofa, de dentinhos separados, vestindo roupinhas vintage e um wayfarer rosa na cabeça (e as filas às portas de qualquer Pierre Hermé)? Hoje, os cupcakes estão com tudo e mais um pouco. Dizem que tem até arabão largando emprego em multinacional de verdade para investir os petrodoláres em cadeias de bolinhos coloridos no Oriente Médio. É, algo me diz que essa moda é global e veio para ficar. Vigilantes do Peso, comemorai.

Porém, todos sabemos que qualquer modinha chega, mais cedo ou mais tarde, ao seu ponto de saturação, né? Pois bem, não são poucas as pessoas que sentem náuseas quando se deparam com um cupcake de mirtilos atômicos. Imaginem o que acontece, então, quando se deparam com cupcakes todos trabalhados na pasta americana de tons pastéis. Não, não imaginem. Esse deve ser mais ou menos o caso da leitora que me escreveu:

Qual é a dos Cupcakes? Porque diablos estão todas enlouquecidas por cupcakes? Aqui em Barcelona, eles têm um nome um pouco menos pomposo, são Madalenas, acho que por isso, não vingou a modinha bolinho de copo por essas bandas,será?

Ah, madalenas! O nome pode ser menos pomposo, mas é muito mais romântico e simpático na minha opinião, ainda mais quando adotada a sua ortografia original: magdalenas. Sem dúvida, os europeus de cultura mediterrânea são mais arraigados às suas próprias tradições culinárias, e, portanto, não se  deixam levar por qualquer modismo. Isso explica a razão de esse tipo de febre não ter se estendido tanto por aí. Se bem que esta matéria denuncia sem pudor: a moda dos cupcakes já chegou a Espanha. Aposto que a culpa é do diablo.

Podemos fazer muitas analogias. Pensem no melão com presunto. Uma combinação que já teve os seus dias de glória em vários cantos do planeta, hoje não passa de algo decadente, fora de moda, quase um sacrilégio indigno de figurar às mesas que aspirem ao posto de… elegantes. E os italianos continuam comendo e adorando, como se a moda nunca tivesse existido. Pois sim, melão com presunto na Itália é vestidinho coquetel preto. Salmão com molho de maracujá é totalmente jegging; por muito esforço que role, é e continuará a ser brega. Se o salmão for selvagem e o maracujá orgânico, o prato poderá subir à categoria de jegging Moschino, Miss Sixty, Baby Phat ou Diesel. Você escolhe. Mas seguirá sendo jegging. E coquetel de camarão, o hit de qualquer festa dos anos 80? Coquetel de camarão é ombreira. Aparecer com um prato desses é o mesmo que ser o alvo das piadas impiedosas da noite. Por muito que se tente resgatar, por muito que o saudosismo bata forte, simplesmente não dá.

E agora me encontro matutando: qual será a próxima comidinha a escalar os degraus da sociedade culinária e a emergir no mundo fashion graças a alguma Blair Waldorf do momento? Quais serão as gostosuras a abarrotar as mentes e as panças fashionistas, os editoriais de moda, as revistas e toda essa maquinaria oficial de papagaiação (também conhecida como blogs)? Pirulito, maçã do amor, marshmallow, framboesas frescas e algodão doce são muito clichéticos, vai.

Confesso que o meu lado mais escatológico adoraria ver a Lara Stone numa Le Creuset gigante nadando em molho de tomate de cachorro-quente de aniversário de criança feito com salsicha vagabunda. Bah.

Ah, a minha opinião pessoal sobre os cupcakes? Hmmm, se alguém quiser assar uma fornada deles, de chocolate com cobertura de brigadeiro, pode me convidar para o lanche da tarde, tá? Sim, tudo de chocolate mesmo, não quero dar trabalho. Reparem não, é que eu sou uma moça bem simples mesmo. Obrigada, beijos.

É, eu sou uma pessoa que vê muitos prós na globalização gastronômica, tá? Se não fosse por ela, essa noite eu não iria me jogar de cabeça em burritos e fajitas e nachos e tacos e guacamoles, com direito à cerveja belga e a sorvete americano de sobremesa. Delícias do mundo inteiro, já que eu não posso ir até vocês, venham até mim.

* Uma palavrinha que está totalmente demodé. E demodé é outra palavra demodé.
** Desculpem-me, não resisti. Alguém aguenta aquela voz? Sério? Séeeeeeerio?

Crédito das fotos: Therese Aldgard e Lisa Edsalv.

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