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Queridos frequentadores desta laje,

Cá estou de volta, finalmente! Fui extremamente otimista na minha previsão de regresso. Apenas hoje pude, enfim, sentar-me para escrever e para reler com calma os emails e os comentários que vocês enviaram. Aproveito para agradecer aos que me escreveram e para avisar que, pouco a pouco, responderei a todos e escreverei sobre os temas sugeridos. Desculpem-me pela demora. Como já são três os depoimentos de leitoras que aguardam publicação, decidi retomar as atividades com um deles. Desde o início do blog, tive a firme e forte intenção de deixar um espaço aberto a todas as pessoas que quisessem falar sobre a sua má experiência com os blogs de moda e de beleza. Claro que, se alguém quiser fazer um contraponto e relatar como a leitura desses blogs foi útil à sua vida, será mais que bem-vindo também.

A leitora que escreveu o depoimento de hoje pediu para que o seu nome não fosse revelado. Decidi apelidá-la de garota rocker, vocês entenderão a razão com o interessante relato que ela deciu compartilhar conosco. Obrigada pela participação, garota rocker. O seu texto revelou que devemos lutar para nos mantermos fiéis à nossa essência e aos nossos princípios sempre, independentemente das eventuais mudanças nas formas e/ou na imagem que projetamos socialmente.

Um bom domingo a todos! :-)

Olá De Chanel.

Tenho acompanhado seu blog diariamente e estou ansiosa por seu retorno.

Sei que você deve receber centenas, quiçá milhares de e-mails com elogios,críticas, sugestões, macumba, injúrias e até ameaças.

Não sei se você tem tempo para ler todos, mas enfim.

Olha, esse depoimento é deveras importante pra mim, quase libertador, precisava escrever.

Sou de Minas, Belo Horizonte.
Advogada, vim para o norte do Mato Grosso inebriada com a possibilidade de ganhos bem superiores aos que me eram oferecidos na minha terrinha amada.
Pois bem.
Estou no norte do estado ha alguns meses.
Ao chegar aqui, constatei que o papel primordial da mulher é ser esposa-filha de agricultor.
Sim. Eles plantam, elas colhem.
E investem a grana em botox, cosméticos, roupas e maquiagens.
Ao longo do tempo, percebi que eu estava em total dissonância com a categoria feminina local.
Não faço as unhas toda semana.Nunca tingi meu cabelo. Não tenho uma Birkin. Não uso marcas.
Sequer sabia o que/quem era Louboutin  (e fui quase execrada plublicamente pela minha ignorância).
Como o homem é produto do meio, me peguei nutrindo desejos obscuros e incontroláveis de adquirir cosméticos, maquiagens, roupas, sapatos, pra me integrar ao grupo, afinal, deixei família, amigos e namorado pra trás.
Pra me antenar nas tendencias (urgh) passei a ler compulsivamente blogs de moda e beleza.
E tome frustração, porque:
a) aqui onde estou, mal vende Johnson & Johnson, quem dirá La Prairie;
b) como assim eu não tenho tempo ? Eu apenas trabalho de 08:00 às 19:00, frequento academia por um hora e depois só tenho que estudar pra
fazer concursos públicos!!! Não é possível, que nao tenho um tempinho para me dirigir à capital do estado (que dista 450 km de onde resido) pra adquirir estes itens (ao menos um blush MAC) de primeira necessidade;
c) como assim eu não tenho dinheiro??? é só comprar pelos sites e torrar toda a grana que se destinaria à minha primeira viagem pra Europa;
d) como assim meu cabelo é monocromático??? Não não e não. Há inclusive estudos publicados dando conta de que as mulheres clareiam os cabelos na mesma proporção em que enriquecem (medo).
e) E essa minha pancinha? “Conheço um cirugião excelente pra tirar esses pneuzinhos, menina!!!” (que nem são tão salientes assim, hunft.)

Some-se a isso o fato de que moro com uma pessoa que guarda diversas pilhas de revistas femininas ( pilhas estas que alcançam, seguramente, mais de 1.50 m. de altura).
Tive a oportunidade de ler o seu post expressando todo o repúdio pelas nefastas consequencias que a leitura de Capricho pode causar nas adolescentes e afirmo que a leitura de Claudia, Estilo, Caras, NOVA (nojo) também causa efeitos devastadores em mulheres adultas.
Mas enfim, lá (aqui) estava eu, frustrada e desesperada para figurar no seleto grupo de “it agro girls”.
Mas epa, epa epa, pera lá!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

A comemoração do meu aniversário de 15 anos foi com a minha irmã me levando pra ver o Deep Purple (no Mineirinho em 1998)!!!
As capas de meus cadernos eram caprichosamente estampadas com recortes de revistas de fotos do Ozzy, Ian Gillan, Robert Plant e Angus Young.
Meu diferencial era saber como montar uma barraca e não ter absolutamente nenhum ataque de frescurite nos acampamentos.
E sempre fui desencanada da aparência sem perder a beleza e feminilidade.
Durante toda minha adolescência e juventude eu sempre repudiei o estereótipo da patricinha alienada e agora eu, pré balzaquiana, eu estava me tornando uma!!!

Foi na ávida procura por blogs de moda que me deparei com o De Chanel na Laje ( o post “Como transformar seu All Star básico num Louboutin foi uma iluminação pra mim”) Com humor ácido e uma boa dose de realidade, você, querida De Chanel, não me deixou me afastar do que sou, e sempre serei.

Bom, definir  isto (o que/quem sou) é tarefa herculiana, dada minha atual confusão de sentimentos e carência, devido a distância das pessoas que amo e as condições que vivo (leia-se sob pressão).

Mas sei que NÃO sou, tampouco quero ser uma alienada que compensa frustração com status.
É claro que nao vou parar de depilar, hidratar o cabelo e comprar roupitchas…
Mas fazer isso visando ser aceita num grupo de pessoas com interesses antagônicos aos meu, não dá.
Meu estilo traduz o que gosto, o que ouço, o que leio, onde vou, onde quero ir, enfim, tudo que contribuiu para eu me tornar a mulher que sou hoje.
Não preciso disso pra legitimar minha competência enquanto profissional. Não preciso de uma bolsa X ou de um carro Y.
Não preciso, não quero precisar, não quero acreditar nisso
Se estou ganhando dinheiro (by the way, nem tanto) vou investi-lo na minha sonhada viagem pra Europa (visitar o túmulo do Jim Morrison é a primeira cisa que farei quando chegar a Paris_ depois dou uma passadinha no da Coco, em sua homenagem.).

Enfim, este foi um desabafo.
Pra mostrar que essa alienação e consumismo também chegou, ha muito tempo a pontos remotos ( estou quase na fronteira com o Pará).
E sobretudo, pra mostrar que a atitude da mídia (especialmente de moda e beleza) endossada pelos consumidores tem um poder altamente destrutivo mesmo para aqueles que se consideram a salvo de tais influências.

Obrigada pelos esclarecimentos De Chanel.

Um abraço carinhoso e agradecido.

De verdade.

Leia outros depoimentos:

Menina epifânica
Menina estressada
Clarissa

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