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A exploração dos animais pela indústria da moda é um tema que muito me interessa e, justamente por isso, acho que vai ser meio difícil ser direta e contundente, mas vou tentar.

Buscar informações sobre esse assunto é algo muito doloroso, porque você sai daquele mundo onírico onde os animais foram criados por Deus para saciar a fome e as necessidades dos seus filhinhos queridos e mimados, e cai de pára-quedas num mundo completamente diferente, no que os animais são tratados como meros objetos, violentados, surrados, açoitados. Pois é, eles sofrem, urram, não têm direito a uma vida digna nem a uma morte minimamente decente. E tudo isso é praticado por nós, os seres racionais que estão no topo da cadeia alimentar e que se julgam os reis do universo e os únicos filhos de Deus. Deus: esse velhinho de barba branca que encheu a sua prole humana de brinquedinhos.

Eis a questão: de forma geral, a indústria trata os animais como brinquedinhos e isso é algo revoltante. Quando você decide que não está disposto a seguir sustentando essa indústria, o preço que você deve pagar é muito, muito alto. Digo isso por experiência própria e já esclareço que ainda não estou no ponto ao que quero chegar, e… sinceramente? Mea culpa. É o único que posso dizer.

Por isso, muita gente prefere não pensar nesse assunto. Seguir amando o pedigree do cachorrinho, comendo a vaquinha e vestindo a raposinha ainda é o caminho mais confortável. É cômodo comer carne todos os dias quando se ignora que, se toda a população do mundo fizesse isso também, seriam necessários vinte planetas Terras.

Por outro lado, ver uma cena de um porco com um hematoma gigante e aberto, cheio de pus, sendo lambido e até comido por outros porcos que depois vão virar presunto é duro. Ver o olhar perdido de uma raposa em carne viva, completamente sem pele, destrói inclusive o coração mais insensível. Ver aqueles extratores metálicos de leite sugando as tetas inchadas, inflamadas e cheias de pus de uma vaca te faz compreender a necessidade da pasteurização e ver a origem do seu iogurte. Pensar que vários animais maravilhosos estão hoje em extinção graças à ação predatória dos homens é vergonhoso. Exigir que as empresas humanizem o trato que dão aos animais parece missão impossível. Não se revolucionam consciências de um dia para o outro.

Com a minha pesquisa e interesse sobre esse assunto, aprendi a duras penas que o melhor para mim (para mim!) é tentar conviver de uma forma não-radical com essa realidade e consumir da forma mais consciente possível alguns produtos de origem animal dos quais ainda dependo.

Já tive os momentos nos que deixei de consumir qualquer produto de origem animal, levada por uma revolta que parecia insuperável, mas o tempo – aliado ao meu vício por queijo, manteiga e chocolate – sempre me fez recuar e até sentir um pouco de raiva de mim mesma. Esse é o tipo de limitação pessoal que me fez ver que o melhor caminho, para mim, seria o de: 1) consumir certos produtos de forma equilibrada e o mais sustentável possível, preocupando-me ao máximo com a procedência deles; 2) banir outros da minha vida completamente, sem concessões.

Direcionando para a indústria da moda, eu não veria problema em consumir produtos feitos com couro de animais criados e abatidos pela indústria alimentícia, como bois, cabras ou carneiros. No entanto, não podemos ser ingênuos. Quase nunca a indústria alimentícia atua em consonância com a indústria da peleteria. Os restos de animais gerados pela indústria alimentícia quase nunca servem para a fabricação de couro. Geralmente, os animais são abatidos de qualquer maneira, sem nenhum cuidado com a preservação da sua pele. E as empresas que criam boizinhos ou coelhinhos com o intuito de extraírem da melhor maneira possível o seu couro não se interessam em vender a carne para o consumo humano.

Pois é, aí está o x da questão: a carne dos animais é resto para a indústria peleteira e a pele dos animais é resto para a indústria alimentícia (na maioria dos casos). Ponto 1.

Ponto 2:  vejo e sempre seguirei a ver como um absurdo sem tamanho a exploração dos animais selvagens, a não ser que você seja um nômade que vive no Pólo Norte e tenha matado o animal em questão com a suas próprias mãos, numa luta de igual para igual. Como já saímos da era das cavernas há muito tempo, certas coisas perderam – ou deveriam ter perdido – o sentido. Naquele tempo, vestíamos as peles de certos animais como necessidade. Hoje, esses animais são usados para responder ao desejo de luxo. Hoje esses animais são criados e explorados com requintes de crueldade nazista, a única coisa que importa é a sua pele/pelo/qualquer coisa.

Inclusive, se fazem modificações genéticas para que esses animais tenham mais superfície de pele, mais pelo, mais/menos qualquer coisa. Não importa se eles vão ficar cegos por isso, ou atrofiados ou em depressão profunda. Não importa se vão virar obesos mórbidos ou se vão sentir uma dor dilacerante 24 horas por dia. O que importa é que existem milhares de pessoas dispostas a desembolsar rios de dinheiro para desfilar por aí ornamentadas com esses cadáveres.

A Hermès, por exemplo, está mais interessada em que a cliente dela desembolse US$120 mil para comprar um casaco de pelo de chinchila do que em saber se as chinchilas foram bem tratadas pelo fornecedor. Aliás, mesmo que elas tivessem sido tratadas a pão-de-ló num ambiente que reproduzisse fielmente o seu habitat natural (cof, cof), não vejo sentido em se fabricar nada feito com a pele desses animais. Não vejo sentido no fato de que um lobo viva em cativeiro nem vejo sentido em que se cace um lobo para que ele vire casaco. Deixem os lobos em paz! Já tiramos a paz das vacas, dos carneiros e de outros animais dosmeticados há milênios, não é suficiente? Realmente temos de conservar sob o nosso jugo todas as criaturas vivas? Até os bebês de foca, Karl Lagerfeld?


Ponto 3: essas casas de luxo que se declaram “amigas dos animais” e que dizem que as peles são ecológicas porque o trato aos animais foi humanizado, blábláblá, quase sempre estão usando uma estratégia para enganar o consumidor, ou melhor, para deixar a consciência dos seus clientes dondocos mais tranquila.

Por outro lado, existem marcas que são realmente comprometidas com a causa animal. Cada vez temos mais alternativas. Não vou citar nenhuma, porque não quero me comprometer.

Algumas pessoas dizem que o couro animal é verdadeiramente ecológico, coisa que não se pode dizer dos produtos substitutivos, na maioria das vezes fabricados com petróleo e outras substâncias poluentes. Outros falam da durabilidade quase eterna das peças de couro, se bem tratadas. Outros dão prioridade a produtos feitos com algodão, e há os que nos lembram da podridão da máfia do algodão. São dilemas. Por isso, penso que cada um deve pesquisar exaustivamente sobre essas coisas, filtrar e seguir os seus próprios princípios.

Para dicas de documentários sobre o assunto, clique em “ler mais”.

Earthlings (Terráqueos): veja-o apenas se você estiver realmente disposto a mudar certos hábitos de consumo, pois é impossível passar ileso por ele. O documentário fala da exploração dos animais pela indústria alimentícia, pela indústria do entretenimento, pela da moda, dos cosméticos, etc. Também fala dos testes científicos realizados nos animais.

Food, Inc. (Alimentos S.A.): esse ótimo documentário também fala da produção industrial de carne, entre outras coisas.

A carne é fraca: esse é um documentário brasileiro sobre a realidade da indústria no nosso país.

Claro que existem mil outras fontes de informação e que não devemos acreditar em tudo cegamente, e que muitas vezes esse tema é abordado com certo sensacionalismo, mas é um bom primeiro passo para conhecer certas realidades dessa exploração, que obviamente mudam de região para região.

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