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Olá, pessoal. Depois de alguns dias lutando contra uma crise alérgica dantesca, cá estou de volta. Hoje vou escrever sobre um assunto proposto pela @paola_scott naquele post. Aproveito para agradecer às pessoas que sugeriram – e seguem sugerindo – temas.

Vamos discutir a famosa frase do Tom Jobim: “No Brasil, fazer sucesso é pecado mortal”? Pq vc acha que aqui os preferidos são os losers, enqto que nos EUA a cultura do winner é que dita o tom?
Até que ponto se deve esconder as suas conquistas lícitas (sejam elas econômicas, profissionais, amorosas) ?

Vamos lá! Em primeiro lugar, devo declarar que não concordo com essa frase do Tom Jobim, assim, solta. Essa frase foi proferida pelo Tom naquele contexto de críticas chauvinistas à bossa nova, quando alguns pentelhos o acusavam de ser um vendido, um subordinado à cultura estadunidense. Por isso, ele também declarou: “o inimigo do brasileiro parece que é o brasileiro mesmo”. Então, eu acho que essa frase do Tom Jobim fez sentido inserida naquele contexto, mas não consigo concordar com ela como uma regra geral.

Quando comecei a pensar nesse assunto, me lembrei na hora da tall poppy syndrome, que prevalece em alguns lugares. Na Nova Zelândia, por exemplo, é feio exibir qualquer tipo de conquista pessoal, profissional, material, social. Muitos kiwis consideram o modelo americano de competitividade uma aberração, um verdadeiro câncer para a vida em sociedade. Alguns dizem que essa mentalidade é mais saudável pois gera uma sociedade com menos complexos e exibicionismos, mais relaxada. Outros dizem que esse ódio à competição acaba gerando falta de competitividade, estudantes e trabalhadores desmotivados, baixo rendimento, entre outras coisas.

Por outro lado, me lembrei da primeira coisa que os jogadores de futebol compram quando recebem o primeiro salário gordo: bolsas Louis Vuitão. A própria marca fez uma espécie de brincadeira com esse fato com aquela campanha estrelada pelo Pelé, pelo Maradona e pelo Zidane. Uma bolsa LV é mais que uma bolsa; é um signo de distinção social. Um brasão que diz ao mundo: sou um vencedor. Usei o exemplo de bolsas LV, mas poderia ter usado qualquer outro. Quando a cultura do vencedor prevalece, as pessoas são estimuladas a conquistar coisas e a exibir os seus troféus. Essa cultura também gera algumas realidades tristes: um batalhão de gente frustrada que se sente fora do sistema, uma competitividade selvagem, muita pressão, uma sociedade estressada e inclusive violenta.

Qual seria o caso do Brasil?  Vendo os dois extremos, opino que no Brasil impera a cultura do vencedor – com certas peculiaridades, claro. Por isso, não concordo com a frase do Tom Jobim como uma verdade nacional. Fazer sucesso no Brasil é pecado mortal? Na minha opinião, não. Só que fazer sucesso no Brasil é coisa para poucos. Este é o ponto! A cultura do vencedor prevalece no Brasil, sim, mas num contexto bem específico, marcado por uma desigualdade social brutal e uma mobilidade social praticamente nula.

Nem todos têm as mesmas oportunidades de vencer no Brasil, o que também gera duas doenças horrorosas: conformismo social e elitismo. Conformismo social responsável pela cultura da babação de ovo ao vencedor. Elitismo que gera uns preconceitos anacrônicos, uma preocupação instintiva com o statu quo e um deslumbramento nauseabundo. Então, de forma resumida, infelizmente, para mim, isso é o que impera no Brasil: a cultura da puxação de saco ao vencedor e a cultura do “puxem o meu saco, por favor” do suposto vencedor.

O brasileiro tem aquela coisa de puxar o saco de qualquer pessoa que pareça mais rica, mais “estudada” ou mais “viajada” do que ele. O brasileiro, quando está por baixo, tem aquele servilismo doentio. O brasileiro, quando está por cima, tem aquele afã megalomaníaco de ser bajulado. Brasileiro gosta de esbanjar assim como gosta de ver gente esbanjadora. Muitos brasileiros ainda cultivam adorações por sobrenomes, olhos claros e qualquer tipo de signo de distinção social. Muitos brasileiros dão aquela olhadinha de lado para ver a roupa dos outros. Tem brasileiro que, com a sua mentalidade de castas, enche o peito de orgulho e diz: eu converso com todo mundo, inclusive com o porteiro do meu prédio e com a faxineira da minha empresa! [será que eu sou a única pessoa que já escutou essa frase ridícula mais de cinco vezes?]

Então, por essas e outras, eu acho que a cultura da admiração ao vencedor dá o tom no Brasil. Não acho que os preferidos no Brasil sejam os losers. Existe, sim, uma herança de patriarcalismo, de discurso vitimista e inclusive um gosto pela falsa modéstia, pelo caipirismo e pela romantização da pobreza, que podem dar a impressão de que os losers são admirados, mas, no fundo, é claro que eles não são. Pensando bem, a malandragem e o famoso jeitinho brasileiro revelam esse gosto por vencer de qualquer maneira e ainda tirar onda com o fato.

Claro que eu estou generalizando, claro que nem todos os brasileiros são assim, mas, de forma geral, eu observo esses comportamentos e mentalidades. Agora, devo esclarecer que em nenhum momento nego a existência de tall poppies no Brasil, afinal, tem gente que se ofende mesmo não com as conquistas alheias em si e sim com a exibição delas. Claro que também não nego que também existem os que se ofendem com as conquistas alheias em si, por questões de competição ou de inveja.

Aproveitando o embalo, a minha opinião sobre a inveja é a seguinte: para começar, muita gente confunde inveja com cobiça. Cobiçar o que uma pessoa tem não é ter inveja dessa pessoa. Almejar o cargo ocupado por outra pessoa não é ter inveja dessa pessoa. Inveja é uma coisa mais profunda, tem uma conotação de raiva, de dor, de sofrimento. Uma pessoa que inveja outra por ter uma determinada coisa não apenas gostaria de ter aquela coisa para ela; às vezes, ela inclusive tem essa mesma coisa. Ela gostaria é que a outra pessoa não tivesse aquela coisa, ela sente dor pelo fato de essa pessoa ter essa coisa. É um sentimento horroroso, forte, triste e eu não entendo por que as pessoas banalizam as palavras e os conceitos dessa maneira. Inveja é uma coisa que pressupõe uma ligação emocional; por isso, eu acho que geralmente as pessoas sentem inveja de outras que são próximas a elas.

Em relação à outra parte da questão, sobre até que ponto se deve esconder as suas conquistas lícitas, devo dizer, em primeiro lugar, que adorei o “lícitas”. É, porque num país onde bicheiros, corruptos e malandros de toda ordem são admirados publicamente, essa é uma observação louvável. Bom, para mim, esse tema é delicado, porque parte de cada um, simplesmente. Algumas pessoas são mais reservadas, algumas inclusive têm vergonha de exibir as suas conquistas (outro complexo gerado por uma sociedade com uma desigualdade social imensa), outras não exibem com medo de serem invejadas (e, sim, eu conheço algumas pessoas que realmente pensam assim), outras não exibem as suas conquistas mas tampouco fazem questão de escondê-las, outras exibem orgulhosas e outras ultrapassam o limite da exibição orgulhosa e chegam ao ponto da esbanjação desenfreada. Então, sobre isso, só posso dizer o óbvio: que cada um deve atuar de acordo com a sua ética, com o seu código de valores (partindo do suposto de que todo mundo tem um código de valores, por muito questionável que seja, claro).

Geralmente dá para diferenciar uma pessoa que só está curtindo as coisas conquistadas ou que gosta de compartilhar essas conquistas das que estão pedindo confete e atenção. Particularmente, não tenho saco para gente exibida, não.  Claro que eu não descarto uma pessoa pelo fato de ela ser exibida, mas não consigo deixar de sentir certa peninha. Afinal, pessoas exibidas quase sempre são carentes e inseguras, né? A minha experiência pessoal me diz que sim.

E vocês? Acham que no Brasil impera a cultura do vencedor ou a cultura do perdedor? Ou uma mistura delas? Até que ponto devemos esconder as nossas conquistas?

YJ6KZSQCSNUP

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