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Los secretos de la moda al descubierto é um livro da Marie-Pierre Lannelongue, jornalista que trabalhou na Elle francesa durante muitos anos. A obra foi publicada em 2008, e, pelo que vi, lamentavelmente ainda não foi traduzida para o português. Então, eu decidi fazer uma tradução livre de alguns trechos do prólogo do livro. Se houver algum erro na tradução, desculpem-me (e avisem-me, por favor; obrigada!). Livro mais que recomendado. Leitura obrigatória.

Prólogo

“A cópia não mata o original” (Gabrielle Chanel).

… O que, sim, vemos constantemente, ao passear por este pequeno planeta, por Xangai ou pelo Rio, por Los Angeles o por Seul, e inclusive por Dakar ou por Calcutá, são garotos de jeans e óculos de sol de marca, garotas bem penteadas, com bolsas sobressalentes e vestidinhos de flores. Exagero? Não, sério que não.

Gostemos ou não, a globalização dos gostos e dos estilos é realmente a única contribuição do Século XXI. Em qualquer lugar onde haja internet, ou seja, em praticamente todos os lugares, em qualquer lugar onde haja um mero vislumbre de prosperidade econômica, ou seja, cada vez em mais e mais países, nos países emergentes que constituem o grande negócio da década, descobrimos os mesmos clipes e filmes, as mesmas revistas e lojas de grife. As pessoas se rendem ao denim e ao culto às marcas.

Ocorre uma conversão generalizada à moda, à moda, à moda. Título de um programa da tv a cabo francesa dedicado à moda. Título bem bobo, mas bastante revelador. “A moda, a moda, a moda”: esse é o refrão que cantarolam jovens – e não tão jovens – nos quatro pontos cardeais do planeta. Coisa que nos faz pensar, sem nenhuma pretensão, e seguindo a linha de Malraux, que o Século XXI é, desde sempre, ultrafashion. Exagero? Será que levamos pouco a sério as estratégias econômicas, as questões geopolíticas, os (des)equilíbrios ecológicos, as tensões, as injustiças, os perigos que ameaçam o clima do mundo? Sim, é verdade. Indiscutivelmente, é uma estupidez não olhar além das nossas shopping-bags. No entanto, nada disso impede que os sapatos e as bolsas das mulheres não representem um termômetro especialmente interessante para medir a temperatura de uma sociedade, tanto em Xangai, Nova Délhi, Dakar ou São Paulo como em Paris, Madri ou Los Angeles.

Exemplos? Há milhares, mas vamos citar apenas um, o da Priyanka, de apenas vinte anos, “atriz de Bollywood” –  uma expressão que designa os milhares de jovens indianas que chegam de todos os rincões do subcontinente para tentar a sorte nos estúdios cinematográficos de Mumbai, os mais prolixos de toda a história do cinema.

Priyanka começa a encontrar o seu espaço quando consegue o papel de enfermeira de uma sitcom. E, todas as noites, nesse começo de verão asfixiante às vésperas das monções, Priyanka vai jantar no Olive, um restaurante chique do bairro-balneário da Maximum City, vestida com o seu inevitável uniforme: jeans de cintura baixa, camiseta de alça que deixa a barriga um pouco de fora e sandálias de couro de alguma cor viva.

Para cada dia, uma cor diferente: do verde-maçã-verde ao fúcsia, sempre combinando com a camiseta. Essas sandálias tradicionais são usadas por todas as mulheres nas ruas; essas charmosas mulheres vestidas com sáris multicoloridos, pobres mas incrivelmente nobres, com os cabelos negro-jade e dezenas de pulseiras douradas.

Priyanka reconhece que “há alguns anos, nenhuma garota da minha geração queria usar essas sandálias, mas, desde que entraram na moda na Europa e nos Estados Unidos, você pode vê-las em todos os lugares: douradas, prateadas, coloridas, de verniz. Assim, todas fingimos que acabamos de descobri-las. Como se não conhecêssemos as ‘verdadeiras’, essas de couro ensebado, surradas, calçadas por mulheres que apenas terão um par delas em toda a sua vida”. Sem dúvidas, a Índia é um país em pleno processo de mutação. Quem se atreveria a dizer que a moda não tem nada que ver com isso?

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As mil e uma coisas que formam o circo da moda – as roupas, as marcas, os manequins, os criadores – são, portanto, as vencedoras. A costura, o chique, o estilo, a tendência e as futilidades – usem as palavras que prefiram – se transformaram num negócio de primeira linha; nas chamadas dos telejornais e nas capas das revistas, na seção de economia dos jornais, assim como nas páginas de estilo e nos tapetes vermelhos das estréias cinematográficas e nas estações de metrô, nas cidades-dormitório e nos bairros residenciais, nos shoppings e nas ruas elegantes, em todas as ruas de todas as cidades.

Com a passagem do século, a moda se converteu numa indústria como as demais, globalizada e, portanto, organizada, em mãos de megafirmas capazes de operar em todos os continentes e mover montanhas de dinheiro. E o luxo atrai, em todo o mundo, milhares de pessoas: os ricos, os muito ricos, os cada vez mais ricos, especialmente se pertencem a esses alardeados países emergentes.

Oligarcas russos e novos-ricos chineses, empresários indianos e grandes latifundiários brasileiros se reuniram, nos registros de pedidos das lojas elegantes, com os pequenos gênios da informática californiana e com os tecnocratas da City. Por citar unicamente alguns dos milhares de privilegiados para os que comprar uma bolsa de pele de crocodilo, cujo preço equivale ao salário de uma professora, é tão natural como respirar. Atrás deles, muito longe, também estão os milhares de consumidores que se viciaram na moda e que economizam para poder comprar uma bolsa de marca ou esperam o início das liquidações para conseguir o seu par de sapatos italianos caríssimos.

Esses são os fashionistas de base, que se nutrem das revistas de moda e adoram a Kate Moss; os profissionais da informática e das finanças que tentam possuir algum símbolo de status (um relógio caro, uma bolsa mítica); mas, sobretudo, são os representantes das classes médias do defunto Terceiro Mundo ou do mundo (ex-)comunista – da China, do Brasil, da Índia, da Rússia, de todo o Leste europeu – os que descobrem, gulosos, os encantos do consumo das roupas prêt-à-porter. A moda seria o novo ópio do povo? Algo assim…

De toda forma, o fenômeno adquiriu tal amplitude, que o público se familiarizou com outros nomes além dos nomes dos estilistas, com outras siglas além das siglas das casa de moda. Citemos Bernard Arnault y LVMH (Louis Vuitton Moët Hennessy), o grupo número um do luxo mundial, que tem um grande leque de marcas de prestígio, entre as quais se encontram Christian Dior, Louis Vuitton, Moët et Chandon e os perfumes Guerlain, citando apenas algumas delas!

Bem-vindos sejam também François Pinault e o seu filho François-Henri Pinault, marido da Salma Hayek, e também dono da FNAC, da Redoute, o cabeça do grupo PPR (Pinault Printemps Redoute) que também se converteu num challenger ao tomar o controle do Gucci Group (Gucci, YSL, Boucheron, Balenciaga…). Aqui também chega Karl Lagerfeld, com o seu rabo-de-cavalo cuidado e os seus 42 kg. a menos, no papel de Imperador prodigiosamente inteligente, culto e mordaz, excelente “cliente” dos meios de comunicação do mundo inteiro, capaz de provocar inesquecíveis tumultos quando a sua coleção “Karl para H&M” chegou aos stands da cadeia! Uma salva de palmas para o império Zara, capaz de oferecer tendência impecável a preços baixos em Dubai ou no México! Um bravo pelo estilo atualíssimo da Mango, outra cadeia de moda que hoje ninguém teria a ousadia de dizer que tem uma qualidade ruim, e que se dá ao luxo de que estrelas como Milla Jovovich ou Penélope Cruz desenhem coleções para ela!

Todo mundo, ou quase todo mundo, está familizarizando-se com este universo: os ricos e os não tão ricos, os senhores e os jovens, as mulheres e os homens… a eles se dirige este livro. Porque são conscientes, no momento de pagar a sua compra, que a atendente da loja não botará na bolsa uma jaqueta ou uma calça, e sim todo um sistema.

Os que estão em busca de revelações escabrosas sobre os costumes indissolúveis de um determinado entorno, sobre as infâmias de um universo impiedoso entre as macérrimas modelos anêmicas e criadores lunáticos e de muito caráter, podem fechar este livro: aqui não tratarei de alimentar as fantasias sobre um mundo que não é mais nem menos “corrupto” que outros, mas onde, sem dúvida, a gente se diverte e se apaixona muito mais que em outros. Os que esperam entender as monobras das bolsas de valores dos grandes grupos e os tratados secretos que se levam a cabo entre as casas de moda são convidados a utilizar os jornais econômicos. Afinal, é necessário um jornal para seguir as múltiplas mudanças de direção nos negócios de luxo… mudanças que acabam cansando inclusive os mais sagazes observadores.

Por outro lado, convido todos aqueles que amam a moda a entrar. Vamos tentar explicar-lhes como se fabrica atualmente. E – prometemos – inclusive falaremos de alguma infâmia e de muitas mudanças. Porque a moda é algo mais que um âmbito profissional. É uma côrte de semideuses e de suas pequenas estrelas, seus gênios e seus cortesões, seus personagens-chave e os seus parasitas, suas paixões e suas baixarias, suas apostas estratégicas e suas pequenas misérias. É um salão, é a côrte. É Versalhes na sua versão globalizada e muito dinheiro. Se vocês gostaram de Marie Antoinette, da Sofia Copolla, o mundo da moda não os decepcionará. É de cor-de-rosa-chiclete, como os doces do filme, decadente e absurda como a vida da côrte, mas não por isso menos divertida. Aqui também, na surdina, num universo entre algodões, se escutam lá de longe os ruídos do mundo. A única diferença: não conhecemos – todavia – o final. Aceitam brioches?

E aqui vai o trailer do remake de Gia Fashion, filme de Bollywood sobre a indústria da moda, estrelado pela Priyanka Chopra. Filmitcho cheio de clichês, algumas verdades e – incrivelmente – muito premiado. Eu gosto de moda e de enlatados bollywoodianos, logo, traguei a obra-prima em questão (hohoho):

Los secretos de la moda al descubierto
Marie-Pierre Lannelongue
208 páginas, 2008, ed. Gustavo Gil.
ISBN: 978-84-252-2211-5

Imagens daqui, daqui, daqui, daqui e daqui.

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