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*Podem me chamar de velha rabugenta, ranzinza e moralista, que eu vou ficar até orgulhosa.*

Cada vez é mais comum ver crianças maquiadas, fantasiadas de adultos e usando, inclusive, sapatos de salto alto. Não consigo achar isso normal. Crianças precisam de roupas confortáveis para poderem correr e brincar livremente, de sapatos que não prejudiquem o crescimento e a coluna, da pele livre para respirar e suar… coisas tão óbvias, tão elementais, que eu não entendo como alguns pais podem ignorá-las.

A criança chora porque quer se maquiar, aí o papai e a mamãe não querem “traumatizar” o pequeno rebento e demonstram o seu amor permitindo que a criança estrague a pele e arrebente os poros, num ato de total desrespeito ao ciclo natural e biológico da evolução humana? Que amor estranho, não? Imagino que seja mais fácil comprar logo a tal da maquiagem em vez de abrir os horizontes dos filhos, mostrando que tudo tem o seu tempo e que há coisas mais divertidas e inteligentes do que se maquiar aos 5 anos: livros, esportes, brincadeiras, jogos, por exemplo, né?

E as mães que alisam e/ou pintam os cabelos dos filhos pequenos? E aqueles estojinhos de “maquiagem para crianças” de R$1,99, fabricados sabe-se lá com que porcarias em fábricas clandestinas em algum rincão da China? E os pais que inscrevem os filhos nesses concursos de beleza para crianças? E os que não deixem que os filhos tenham uma infância normal porque querem explorar o  seu suposto “potencial artístico, científico e/ou esportivo”? Quantas dessas crianças ficam pelo caminho? Quantas são vítimas de maus tratos quando não correspondem às expectativas? Quantas dessas crianças realmente desfrutam do ato de desfilar ou de participar uma longa sessão de fotos? Qual a necessidade de tudo isso?

Pelo que eu saiba, não existe nenhuma lei que obrigue os cidadãos a terem filhos e os métodos contraceptivos são mais que conhecidos. Acho muito injusto e covarde conceber um filho para depois fazer a criança de marionete, de bichinho de estimação, de troféu de exibição, de brinquedo, de boneca, ou de válvula de escape para frustrações doentias. Fazer terapia sai muito mais em conta do que ter um filho; será que as pessoas não se tocam?

Um dia desses, enquanto estava numa fila numa loja de departamentos qualquer, observei duas meninas de uns 11 ou 12 anos (no máximo) que estavam na minha frente. Cada uma delas estava comprando um sutiã e uma calcinha fio-dental, ambos vermelhos. As duas meninas, além de estarem supermaquiadas, mega-arrumadas, conversavam num tom muito afetado, sem naturalidade alguma. Era curioso o contraste entre as carinhas de criança que elas tinham, apesar da maquiagem, e o comportamento adulto.  E eu pensava cá com os meus botões: se atualmente se fala tanto na extensão da adolescência até a casa dos 30, e as crianças começam a ser adolescentes aos 10 anos, pode-se dizer, então, que uma fase que antes durava entre 5 e 8 anos, hoje dura vinte anos? Vinte anos de adolescência? Uff.

Vendo essas fotos, reconheço que sinto até uma punção no coração. Vejam a carinha de desilusão da primeira menininha, o sorriso forçado da terceira e a cara de tédio da quinta.

Sei que é normal que algumas crianças se interessem por certas coisas do mundo adulto. Uma das minhas (muitas, infinitas) diversões quando criança era brincar com as roupas e com as maquiagens da minha mãe. Também sei que em algumas culturas é costume passar certas maquiagens em crianças, como na Índia, por exemplo, onde passam kajal (que é antibactericida) nos olhos de bebês e crianças. Mas para tudo tem que haver um limite, né?

Gosto de crianças-crianças e de mini-pessoinhas. Mas não gosto de mini-adultinhos – e gosto menos ainda dos pais/tutores dos mini-adultinhos.

Fotos daqui e daqui.

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