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As águas de março acabam de fechar o verão tupiniquim, e já estamos – quase – cansadas de pensar no outono. Porque isso é assim, caras assinantes desta revista virtual: vivemos em colapso estacional. O corpo está aqui sofrendo as consequências da estação atual, mas a nossa cabeça e os nossos sentidos estão atentos às tendências da estação vindoura. Também pensamos no que foi tendência na estação passada do Norte e que talvez possa funcionar no Sul. O bom é que os que vivem lá em cima muitas vezes servem como cobaias dos que vivem cá embaixo.  O ruim é que muitas vezes os que estão embaixo compram os restos de estoque da temporada passada lá de cima (oi, Zara). Assim, enquanto curtimos o outono sulista estamos ligadas no que está rolando na primavera nortista. E tentamos adivinhar o que vai pintar nos trópicos e subtrópicos daqui a 6 meses. Matutamos sobre as referências primaveris que podem ser outonalmente adotadas.

Vivemos assim, entre outonos e primaveras, invernos e verões, estações indefinidas, aquecimento global, passado, futuro e um presente que às vezes se perde no meio de tanta referência. Exemplo: tem gente achando que moletom é tendência para o outono/inverno brasuca de 2010. Só que o moletom foi morto e enterrado num passado já bem distante, algo como… 2008? 2009? Quem se importa? Resumindo: moletom já foi e nunca deveria ter sido. Melhor não ressuscitar um defunto quenasceu morto.

O colapso estacional pira a nossa mente e as nossas finanças, assim como as nossas ilusões e desejos mais profundos. Expectativas para um look do dia que nunca vai existir. Aquela tendência que São Pedro não quer que nós sigamos. São as chuvas que não chegam e nos impedem de estrear a nossa gabardina Burberry. É aquele bafão fora de hora que atrapalha os nossos sonhos de cashmere e de bolos de maçã com especiarias. A roupa que você nunca vai poder usar para trabalhar porque o ar do escritório pifou. A chuva inesperada encharcando os pés que você guardava cuidadosamente num peep toe de cetim rosa. As calçadas de pedras portuguesas, molhadas e escorregadias, que declaram guerra ao seu Loubi preferido.

Apesar de tudo isso, somos beatas da moda e não desistimos nunca.

Esse outono traz um ar de renovação muito positivo! Pense nas células bronzeadas e castigadas pelos raios ultravioletas que você vai mandar embora pelo ralo da banheira, dia após dia, exfoliação após exfoliação. Pense em todas essas cores fluorescentes abandonando os acessórios, as unhas e os editoriais de moda, e voltando às canetas marca-texto, lugar de onde nunca deveriam ter saído, por sinal. Pense no Jade e sinta a nostalgia dos tempos passados, as bees todas se estapeando por um vidrinho num leilão do ebay. Como éramos loucas naqueles tempos! Ah, a juventude! Ah, as misturinhas de esmalte que nunca deram certo… era legal brincar de alquimista naquelas monótonas tardes adolescentes. Relembre-se da sua base escorrendo, misturando-se ao suor salgado naquela festa onde tocava rebolation e bad romance, o rímel todo borrado, o seu mojito parecendo uma sopa, a mulherada de bandage e os carinhas finalmente rendendo-se à utilidade da ditadura fashion. Maldito clima tropical.

Eis que tudo isso agora é passado. Outono, seja bem-vindo! As árvores tropicais não cobrem o chão de folhinhas avermelhadas como as árvores de climas temperados, mas é outono mesmo assim. As praias esvaziam, as tardes de sol são maravilhosas quando uma brisa fresca dá um leve tapa na sua cútis cada vez mais clara e as cigarras têm mais energia para cantar. As rãs para saltitar. E você para se jogar nas rendas. Rendas são mais outonais que primaveris. Aliás, o melhor desse outono é que você vai poder trazer quase todas as tendências da primavera de lá para o outono de cá. Enquanto no Brasil se fala de outono/inverno e na Europa se fala em primavera/verão, eu falarei do outono/primavera. Afinal, nunca houve uma primavera tão outonal. Vide o Chanel Particulière, cujo uso – é inevitável apontar – requer certa precaução se você ainda não cumpriu 80 primaveras. Tirando as estampinhas floridas e os tons de coral e pink – apostas primaveris que a própria Eva já seguia lá no Paraíso -, você pode adotar quase tudo. As marcas optaram por propostas neutras, facilmente adaptáveis a qualquer clima e a qualquer contexto. As roupas ganham um ar atemporal e uma grande mobilidade internacional. A crise mundial é séria demais para levar a cabo propostas arriscadas. Todas as firmas estão morrendo de medo das prateleiras cheias, das liquidações antecipadas, das ofertas de 70% para a venda do estoque encalhado e dos mercados africanos lotados de roupas desviadas dos fundos de cooperação pelos contrabandistas safados.

Você pode optar pelo visual vou-ali-fazer-um-sáfari ou pelo visual a-caminho-de-combater-no-Iraque. O circunspecto labutando-na-lavoura ou a versão mais romântica colhendo-morangos-silvestres-no-campo (de tamanco não) também estão com tudo, sem citar o vou-fazer-um-cruzeiro-no-Mediterrâneo-nos-anos-70 e o vou-fazer-sexo-no-sul-da-Itália-nos-anos-50. Isso significa, por exemplo, que você pode adotar as lingeries. Uma camisola estilosa pode funcionar perfeitamente como saia, você pode fazer sobreposições, espartilhos discretos funcionam perfeitamente debaixo de blazers e jaquetas. Para seguir essa tendência, que também quadra perfeitamente com o outono, lembre-se de passar nos brechós ou no armário da sua avó. Atenção ao cheiro de naftalina.

O nude se reafirma e continua com tudo. Dizem que as celebridades apostam por ele patrocinadas pelas marcas devido aos gigantes excedentes de tecidos, linhas e aviamentos da última estação, e que toda a indústria da moda se uniu para salvar o histórico fracasso do hype nudista. Acho que esses sujeitos dizem isso porque, na verdade, não estamos vendo pessoas na rua vestidas de nude da cabeça aos pés. Um sapatinho aqui, uma blusa ali, mas nada do outro mundo. Talvez as coisas mudem na primavera européia. Aguardemos.  Eu acho que quem implica com o nude tem inveja. É, inveja. Do que eu não sei, mas isso só pode ser inveja. Eu particularmente não implico com o nude, e acho que todos os tons nudistas combinam muito bem com a austeridade dos tempos atuais. Moda é contexto. Vivemos numa era nude, tá tudo nude por aí, não dá para esperar cores muito vibrantes nas passarelas, né? Deixemos, portanto, as cores vibrantes para os sáris das indianas por enquanto.

A única coisa da qual eu não gosto é do termo nude em si. Acho chato, entediante, vazio de significado. Bobo. Meio metidinho. Prefiro dizer areia. Tons de areia. Pense nas areias do deserto do Saara, do deserto de Kalahari, do deserto de Taklamakan, de Jericoacoara, Grumari ou Varadero. Areias brancas, beges, cinzas, negras, douradas, em tons de cobre e de coral ou de burro-quando-foge… sempre existirá um tom de areia que reproduza o tom da sua pele. Areia é uma coisa tão outono. A idéia é andar camuflado, ser um mais, não se destacar nas multidões. Já falei que moda é contexto?

Os shorts, que também encarnaram com tudo na primavera nortista, podem ser adaptados ao outono sulista. Dessa vez, opte pelos de cintura alta. Pessoalmente, eu acho que roupas de cintura alta com um bom corte dão um ar bem elegante, embora o código monárquico, por exemplo, proíba o seu uso pelas meninas de sangue azul (muito sério). Não se esqueça de que a exibição dos gominhos da bunda continua tendo um certo simbolismo de vulgaridade, então cuidado com a modelagem do seu short. Uma boa idéia é pegar as calças de cintura alta que a sua mãe usou nos anos 80 e adaptar. Moda em tempo de vacas magras é isso aí, desempine esse nariz. A tendência de tecidos vaporosos também se adapta perfeitamente ao outono tropical, e um vestidinho gasoso fica tudo embaixo de um trench coat leve. Se for em tom areia, woo-hoo! Tons pastel também estão em alta e podem ficar ótimos misturados com sabedoria aos tons mais outonais. Se você não curte, finja que tons pastel só são usados em marshmallows cheios de goma e de química. E em roupas de bebê, claro. Perceberam que os frufrus também estão aí? Ignore os frufrus primaveris e adote os outonais. Eles também existem.

Bem, para – quase – finalizar, vamos falar dessa onda de esporte-futurista. Resumidamente, deixe as roupas de ciclista para quando você for andar de bicicleta. E lembre-se do Gabriel, o pensador: viver é como andar de bicicleta; se parar, você ca-ai. O mesmo digo para roupitchas de jogar tênis ou golf. Tamancos são divertidos, eu adoro, embora nunca tenha tido um. É que eu acho que eles combinam mais com a Bécassine ou com um holandês produtor de queijos esburacados do que comigo. Finja que aquele modelo petate-bandoleira Louis Vuitton nunca existiu, para o delírio das nossas retinas. E lembre-se da lição que nos deixou Karlinho Lagerfeld: dá para ser bicho-grilo-ecoexigente-reciclável-bio-orgânico sem perder o gramour. E, em palavras da Carol Herrera: a moda às vezes é frívola, mas também é necessária. Dessa vez, muito mais necessária que frívola, mas é moda mesmo assim.

Um bom outono para todas vocês e uma ótima primavera – com florzinhas no vaso e não na roupa – para mim.

Anna Wintour.*

* da linha I’m not the original.

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