Tags

, , ,

Um dia desses, rodava por uma H&M da vida quando percebi que havia duas araras inteiras de roupitchas da Soneca Rykiel encalhadas.  Enquanto dava uma xeretada básica, duas adolescentes se aproximaram e começaram a brincar entre elas: essa coleção está com 50% de desconto há dias e, ainda assim, ninguém compra; acho que, mesmo que eles dessem de graça, ninguém ia querer. Uns minutos depois, duas amigas na faixa dos 30 também começaram a criticar as roupas, dizendo que um dos casacos serviria no máximo como tapete de banheiro. E eu juro que todas elas me deram aquela olhadinha básica de rabo-de-olho, pensando que eu ia comprar algum exemplar.

E eu pensava cá com os meus botões: ora, se praticamente todas as roupas que a H&M vende são de péssima qualidade, por que as pessoas se surpreendem tanto? Basta que uma coleção seja formulada por um estilista famoso para que automaticamente a coisa seja diferente? Deveria ser assim. Os estilistas até poderiam exigir uma maior qualidade nas roupas ou sapatos assinados por eles. Porém, não é assim que a banda toca. Talvez todo mundo esteja conformado com o fato de que a H&M faz roupa para ser usada, no máximo, duas vezes mesmo. O jogo funciona assim. Essas são as regras. E voilà!

Eu sou um pouco suspeita para falar, porque não gosto nem um pouco da H&M. Em primeiro lugar, sempre fico meio enjoada quando entro lá, porque acho que todas as lojas fedem a uma mistura nauseabunda de  plástico e poliéster. Sério, sou nariguda e com olfato de enófila, não posso evitar. Em segundo lugar, acho que as roupas geralmente são mal modeladas, com corte e caimento feios, e a qualidade dos tecidos, da costura e do acabamento deixa – e muito – a desejar. Em terceiro lugar, as lojas geralmente estão abarrotadas de gente que acotovela, empurra, grita, além de embolar e jogar as roupas por aí, chão incluído – pela minha experiência, isso independe do país em que se esteja. E, para completar, penso que pouquíssimas vezes os produtos têm uma relação qualidade-preço aceitável. É, eu não acho a H&M tããããão barata assim.

Claro que nada disso impede que você – amiga de olho bom, olfato para pechinchas e paciência para explorar araras e pilhas de roupas – encontre pecinhas legais por lá, né? Infelizmente, eu sou do time dos que têm pouca paciência, talento e tempo para esse tipo de caça ao tesouro, e a única peça interessante que lá comprei até hoje foi uma saia linda para a minha mãe, de algodão orgânico, que estava perdida no meio de um monte de suéteres cheios de bolinhas na área de ofertas. Paguei 5€ e a saia custava originalmente 49,90€. Classifico esse fenômeno como sorte e não como “ah, a H&M é ótima, sempre dá para fazer uns achados por lá”. Porque eu não faço, ora!

Além do mais, por mais que eu não goste da H&M, acho que o maior ponto positivo desse tipo de cadeia é facilitar o acesso a roupas que você só tem interesse em usar poucas vezes. Se você é vítima da moda e quer usar tal coisa só porque está em voga, sem nem pensar se você gostou dela ou não, o problema é seu e eu não tenho nada a ver com isso. Apenas acho justo que você tenha essa opção e não precise se endividar para seguir as tendências.

Acho que é pensando nisso que muita gente sonha com a abertura da H&M no Brasil. Coisa que nunca chegou a ser oficialmente uma hipótese  e que eu acho altamente improvável, já que a cadeia só está presente nos EUA, no Canadá, na Europa, em alguns países árabes e em alguns poucos asiáticos superconsumistas. Países onde o poder aquisitivo da classe média é bem superior ao do Brasil, e onde, de certa forma, eles podem manter o status de loja acessível e barata. Bem, convertendo os preços e somando os 60% de imposto de importação, mais o ICMS e a forte carga tributária trabalhista, a H&M, se aberta no Brasil, seria uma loja extremamente cara. Uma loja mais de roupa cara e de qualidade duvidosa para a nossa coleção, néam? Por isso eu digo “não, obrigada”. E, se tivesse que chutar, diria que o primeiro país latino-americano onde a H&M entraria seria o México.

O que eu não sei é até que ponto a entrada no Brasil seria rentável para eles. Para a Zara, por exemplo, entrar no Brasil foi interessante, mas eles só conseguem se manter no país cobrando preços muito superiores aos cobrados, por exemplo, nos países europeus, o que não se justifica apenas pelos impostos bárbaros como também pelo volume comparativamente bem inferior de vendas.

Certa vez, li num blog brasileiro cujo nome não lembro que muita gente no Brasil tem preconceito com a holandesa C&A mas sonha com a abertura da sueca H&M. Preconceito bem típico brasileiro: desvalorizar o que está dentro e supervalorizar o que está fora, sem ativar a parte crítica do cérebro. Comparando, eu diria que a qualidade das roupas da C&A é relativamente superior à das roupas da H&M. Só que também existe o fator do posicionamento da marca, que muda de acordo com o mercado. Aqui onde moro, a C&A é vista como uma loja para comprar roupas básicas e de trabalho, pijamas, meias, cuecas e é frequentada por pessoas mais velhas. Já a H&M vai mais na onda das tendências e a clientela é mais jovem. Generalizando, claro. Talvez haja países em que as duas cadeias compitam na mesma linha, não sei. Ah, outra coisa que li e achei ridícula é que, para muita gente no Brasil, um trapinho H&M é apenas uma etiqueta que diz “eu viajei para o exterior”. Que bobeira, né? *náuseas*

Enfim, deixando essas considerações de lado, não podemos adivinhar até que ponto a H&M ajudaria a democratizar o acesso à moda no Brasil. Particularmente, acho que não ajudaria. Aumentaria as opções para o consumidor, sim. No entanto, em termos de democratização e ampliação real da oferta, acho que não contribuiria em nada, muito pelo contrário. #minhaopinião.

Anúncios