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Presente de chinês representa, na mitologia pós-moderna, o mesmo que o presente de grego na mitologia clássica.

Um dia desses, ganhei um autêntico presente de chinês de uma companheira de trabalho.

Dona Fifi (nome fictício, claro) comprou pela internet, toda pimpona, os famosos meteoritos da Guerlain. O pacote chegou no meio do expediente.

Estava encantada da vida, cantarolando rap francês e saltitando pelo escritório, até que descobriu que o pincel que acompanhava os meteoritos era feito com pelos de cabra do Tibete.

Surtou. Deu um chilique com a voz mais aguda do que nunca, dizendo que estava “com nojinho” e que não ia passar pelo de cabra “na cara” (delicada essa Dona Fifi).

Depois mudou o tom do discurso e disse que apoiava a causa tibetana e que era devota do Dalai Lama. Portanto, não usaria esse pincel por motivos ideológicos, religiosos e políticos.

Eu divagava cá com os meus botões: do jeito que a Dona Fifi é, ela devia pensar que o tal pincel foi feito com pelos de poodle, afinal, as madames sempre estão trocando a cor dos cãezinhos e deviam vender os pelos por aí, tal qual a própria Dona Fifi já vendeu a sua juba por uns R$150.

Enfim, sem mais delongas, a Dona Fifi me deu o pincel de presente. Convenhamos que é uma atitude muito feia dar de presente algo que você mesma desdenha com todas as suas forças. Mais ainda se tudo isso se faz na presença de testemunhas.

Mas, tudo bem, eu aceitei. Por educação. Todos no escritório sabem que eu e a Dona Fifi nunca seremos melhores amigas. Ela é uma menina Schiaparelli e eu sou uma garota Chanel. Sentiram o drama, né? Mas educação é educação. Eu fico com o pepino, mas não escorrego na banana.

Já em casa, resolvi lavar o precioso pincel. Nunca na minha vida havia visto um pincel perder tantos, mas tantos pelos, tantos, tantos, tantos pelos, numa só lavagem, assim como nunca tinha visto um pincel tão fedorento. Choquei. Aquele pincel só poderia ser falsificado! Mesmo que a Guerlain seja relativamente desprezível, não poderia assinar em dourado uma porcaria daquelas, questão de lógica.

Matutei como eu poderia dizer à Dona Fifi que ela havia comprado um produto falsificado pela internet. Maior prejuízo. Poxa, além do mais, é meio chato dizer em alto e bom som que o presente que te deram é uma falsificação. Então, pensando melhor, bolei a hipótese de que talvez a Dona Fifi já tivesse percebido que o produto era falso e por isso me deu o pincel de presente. É, ela me odeia.

Fiquei assim intrigada, mas me esqueci do assunto por uns dias. Até que, deambulando por uma loja de cosméticos, vi os tais meteoritos. Foi a primeira vez que olhei para uma prateleira de produtos Guerlain, argh! Corri para fazer uma perícia minuciosa do pincel, e eis que descobri: aquele pincel não era falsificado…

Era uma bosta mesmo!

Um verdadeiro presente de chinês!

Guerlain, você me paga. Fifi, você também!

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