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A venda de cremes branqueadores da pele cresce vertiginosamente a cada ano, em países como Índia, Coréia do Sul, China, Japão, Indonésia, Filipinas, e também em muitos países africanos. Alguns já classificam o fenômeno como o novo racismo global. A mensagem é: se você tem a pele escura e está infeliz com ela, fique tranquilo; existem mil creminhos que prometem clareá-la.

Nunca na história deste blog um post demorou tanto a ser escrito, caros mochileiros virtuais. Já apaguei cinco parágrafos e confesso que não sei como começar a falar de um tema tão delicado sem cair nas armadilhas do discurso maniqueísta, limitado e limitador. Se assim for, desculpem-me. O tema é complexo, sejamos minimamente realistas e um pouco compreensivos. Podemos nos centrar, por exemplo, na Índia, já que seria impossível falar de todos os países. Centremo-nos, portanto, naquele subcontinente de realidade intensa e caótica que sempre reserva incríveis surpresas inclusive ao viajante mais profissional, cético e objetivo (captou o clichê?).

Pois bem, a Índia é um país de formação étnica deveras complexa e variada, e apenas uma pequena parte da população – descendentes de povos arianos ancestrais e dos europeus que por lá se estabeleceram na época do colonialismo – é branca. Ter a pele clara nesse país é sinal de status, de ascendência nobree de posição social privilegiada. Quando uma criança nasce, a primeira pergunta que se faz – depois de constatado o sexo, claro está! –  é se o bebê tem a pele clara ou escura. Desnecessário dizer que um bebê de pele clara será mais bem-recebido e paparicado do que um bebê de pele escura. Agora, se for menina e escura, imaginem o drama.

De forma geral, mulheres de pele clara obtêm muitas vantagens na hora da negociação matrimonial: pagam um dote  menor e conseguem um maior número de pretendentes. Já diz o ditado popular local: para o branco, o amor é imediato. Numerosos estudos indicam que, quanto mais clara a pele de uma pessoa, maior facilidade ela terá para conseguir emprego e, inclusive, para fechar acordos e negócios de toda sorte.

Além disso, na cultura indiana, a pele clara tem, historicamente, um forte significado de feminilidade e de fragilidade. Também representa o privilégio das classes acomodadas, a proteção natural dos que dedicam o seu tempo aos chiques salões de ócio e de chá. Distingue o trabalhador braçal, que esturrica a sua pele sob o duro e impiedoso sol tropical, do trabalhador de colarinho branco. Outro reflexo perfeito dessa realidade é Bollywood. A maior parte das estrelas cinematográficas do país é gente de pele e de olhos claros, nada mais distante da realidade étnica da maioria da população indiana.

Não é de se estranhar, portanto, que muitos indianos estejam dispostos a investir no clareamento da sua pele. De passar talco no rosto a hospedar-se em spas luxuosos com programas intensivos de branqueamento, tudo vale. Por isso mesmo, os cremes clareadores hoje são o carro-chefe da indústria cosmética nesse país, que começa nas pequenas casas de produtos ayurvédicos tradicionais e termina nas gigantescas multinacionais ocidentais. Ninguém perde a oportunidade de explorar essa rentável indústria, que hoje vende cada vez mais inclusive ao público masculino. Enquanto houver demanda, obviamente haverá oferta. Isso não questiono.

No entanto, há alguns aspectos controvertidos nessa história toda, a saber: 1) a real eficácia desses cremes; 2) o perigo desses cremes para a saúde e o impacto sobre o organismo; 3) o tratamento publicitário dado à questão especialmente pelas grandes empresas do setor.

1) Muitos, muitos, muitos médicos e cientistas questionam a eficácia desses cremes. Ou melhor, provam que esses cremes prometem coisas que não se podem cumprir. Basta jogar skin bleaching no google para comprovar.

2) Esses mesmos estudiosos alertam para o perigo de alguns desses cremes, que podem manchar ou, inclusive, queimar a pele. Os mais fortes contêm, por exemplo, mercúrio, substância proibida atualmente em muitos países pelo seu grau de toxicidade. Todos são taxativos: é impossível que um creme clareie efetivamente a pele, mesmo que de forma superficial, sem conter, na sua formulação, produtos altamente prejudiciais ao organismo. Recomendo que não busquem no google imagens de pessoas prejudicadas por esses cremes, acreditem em mim.

3) As grandes empresas do setor lidam com os cremes branqueadores da mesma forma como lidam com a maior parte dos produtos cosméticos: produtos com uma funcionalidade específica que acabam cumprindo um papel especial que transcende a sua própria funcionalidade. Ou seja, ganham uma aura miraculosa. Vejamos: esse creme combate as suas rugas e faz de você uma pessoa mais feliz. Com esse shampoo, o seu cabelo ficará radiante, volumoso, macio e a sua auto-estima atingirá limites estratosféricos. Com o batom tal, a sua boca vai adquirir um tom pós-moderno e uma textura levemente siliconada e você sentirá que pode comer o mundo como se fosse uma cereja madura. Até aqui, nada de especial, né?

É. Nesse sentido, o discurso é o mesmo. Só que – convenhamos! – vender um creme branqueador de pele não é o mesmo que vender um creme que combate rugas, um shampoo de volume ou um mísero batom. É um produto que mexe com questões raciais. Repito: questões raciais. E isso num país onde a maioria da população é declaradamente racista e infeliz com a cor da própria pele. Logo, é no mínimo questionável que essas empresas queiram adotar o mesmo discurso que se usa para vender um creme anti-rugas. É lógico que o tratamento publicitário não deve ser o mesmo; caso contrário, os resultados serão desastrosos, racistas, classistas, evocadores de um passado imperialista com feridas ainda abertas. Vejam um exemplo asqueroso de um anúncio do Ponds White Beauty:

Mocinho branco se separa da mocinha morena e se compromete com a mocinha branca. Mocinha morena, com a auto-estima em frangalhos, descobre o milagroso creme Ponds White Beauty e começa a usá-lo. Mocinho branco e mocinha cada vez menos morena se encontram casualmente algumas vezes. Quando a mocinha morena já está com a pele suficientemente clara, mocinho branco a persegue e os dois terminam juntos.

Tradução: clareie a sua pele para conquistar um macho (preferentemente, de pele clara também). Ser escuro é feio. Só são viáveis as relações entre pessoas de mesma cor.  A sua auto-estima está ligada à cor da sua pele. Se você não gosta da cor da sua pele, tudo bem, nenhum problema. Temos um creminho para isso. A mocinha que clareou a pele é mais nobre que a mocinha de pele naturalmente clara, o que reforça o caráter ético de quem usa o produto, dando aquela massageada na consciência.

Vocês também sentiram nojo? Eu senti.

Lembrando que a fabricante do Ponds – Unilever – é a mesma que fabrica Dove, linha de produtos que propaga os ideais do mundo-benetton e do mundo-antiphotoshop.

Sei que muita gente vê esses produtos com a maior naturalidade. Afinal, as ocidentais também se bronzeiam loucamente. Ter uma pele levemente bronzeada também tem uma conotação de vida saudável. E confere certo status: significa que você tem tempo para ócio, dinheiro para torrar nas praias mais bonitas do planeta, dinheiro para clubes ou para a manutenção da piscina de casa. A sua vida está resolvida, você agora só quer diversão.

Na mesma linha de defesa, outros argumentam que todos os segmentos de consumidores têm o direito de que os seus anseios encontrem respostas da indústria. Mas aqui nos encontramos num ponto crucial: as empresas estão apenas respondendo à demanda desses consumidores ou estão explorando, de forma anti-ética, através dos anúncios publicitários, uma questão racial mais profunda? O clareamento de pele das orientais é o mesmo que o bronzeamento das ocidentais ou nesse angu há mais caroços? Vocês não acham triste que, em pleno 2010, ainda existam povos coletivamente complexados com a sua realidade étnica? O fracasso é de quem? Do sistema educativo, das tradições mais arraigadas, das alegorias religiosas, da ignorância? Ou isso é apenas um reflexo de umas feridas históricas que levam muito tempo para serem cicatrizadas?

Eu só sei que uma vez escutei de uma mulher negra que, se ela pudesse, “entraria num balde de água sanitária para clarear a pele”.

Achei aquela declaração tão dolorosamente profunda, tão verdadeira e ao mesmo tempo tão triste…

É tão fácil julgar alguém quando não se está na sua pele. Nunca melhor dito.

Aqui você encontra um post interessante sobre o assunto. Obrigada pelo link, Fernanda!


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